terça-feira, 16 de outubro de 2007

Comentário

Através desta crónica dos costumes, sabemos como funciona a política, a educação, as finanças, o jornalismo da época e a moral. Apercebemo-nos da mediocridade cultural desta sociedade que quer aparentar ser civilizada e cosmopolita, mas não sabe valorizar o que é seu, nem adaptar a si o que importa, como é bem visível no episódio das Corridas no Hipódromo, evento que é copiado de Inglaterra e para o qual não estamos preparados: não temos cavalos, nem conhecimento, nem instalações, nem público. Talvez por isso Afonso defendesse as touradas por serem nacionais, genuínas e escola de força e coragem. Ega ilustra muito bem esta atitude com a metáfora das botas pontiagudas, cuja moda Portugal importou, mas sedento de se modernizar ridiculamente revirou as pontas como proas de barcos.
Constatamos que os responsáveis pela educação são culturalmente limitados, como vemos quando Sousa Neto, oficial superior da Instrução Pública, dialoga com Carlos, querendo saber se em Inglaterra havia literatura e responde às provocações de Ega, dizendo que o amor é um assunto escabroso.
Ficamos chocados quando o director do Banco Nacional – Jacob Cohen –, no Jantar no Hotel Central, brinca com a má situação financeira do país, dizendo que ele vai “num galopezinho muito seguro e muito a direito” para a bancarrota. Mas sorrimos quando Ega defende a invasão espanhola, como única solução para o país, que depois de humilhado renasceria de novo, devido à ironia com que o diz. Lamentamos que o político Gouvarinho tenha como principal característica a falta de memória e que não saiba fundamentar as coisas que diz.
E as mulheres? Os exemplos que conhecemos – Raquel Cohen e Condessa de Gouvarinho - não são muito favoráveis para o retrato da mulher burguesa do século XIX - adúltera, fútil e imoral.
Nem o jornalismo escapa ao monóculo atento de Eça: é corrupto, sensacionalista e vive da calúnia e do suborno, como se vê bem no episódio da carta, publicada no Corneta do Diabo, em que Dâmaso humilha Carlos e quando Ega visita a redacção do Jornal “A Tarde” para fazer publicar a retratação de Dâmaso, que se confessa frequentemente embriagado.
Neste ambiente fútil e imoral não admira que Carlos não realize os projectos que idealizara: no seu consultório poucos clientes recebe, o laboratório fica intacto, pois o tempo dispendido na esgrima, nos cavalos, no bricabraque, nos adulteriozinhos, nos eventos sociais e com Maria Eduarda, não lhe deixou tempo para investigar, o seu livro de ideias gerais sobre a medicina e a revista, em conjunto com Ega, mantêm-se apenas no campo das ideias. Ele é afinal aquilo que se adivinhava desde o seu tempo de Coimbra: um diletante.
O final é ambíguo, pois embora Carlos e Ega afirmem que "não vale a pena correr para nada, nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder" e que tudo na vida é ilusão e sofrimento, acabam por correr desesperadamente para apanhar um transporte público que os leve a um jantar para o qual estão atrasados. Mas é ao mesmo tempo esclarecedor, pois Ega – o olho e voz mais perspicazes e críticos de todo a obra – diz a Carlos que afinal eles sempre foram “românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão…”, o que nós já suspeitávamos, sobretudo em relação a Ega devido ao seu carácter impulsivo e apaixonado, que o leva, por exemplo, a cair de amores por Raquel Cohen e a pretender desafiar o marido desta para um duelo quando a relação adúltera é por ele descoberta. Também Carlos tem os seus adulteriozinhos, desde Coimbra – a Hermengarda – a Lisboa – a Gouvarinho – e também ele cairá na tentação de um duelo, quando a verdade sobre a vida e o nome de Maria Eduarda é revelada de forma insultuosa no jornal “A Corneta do Diabo”, escrita pelo despeitado Dâmaso – exemplo caricatural de todos os defeitos humanos.
A voz da razão, do bom senso e da honra e honestidade foi sempre Afonso cuja experiência o leva a resumir em três frases o rumo que o país deveria seguir: “aos políticos, menos liberalismo e mais carácter; aos homens de letras, menos eloquência e mais ideias; aos cidadãos em geral: menos progresso e mais moral.” E nós somos levados a concordar com ele quando fechamos a última página do livro e vemos Ega e Carlos desesperados atrás do americano por causa de um prato de paio com ervilhas…

Assunto

Neste livro Eça dá-nos a conhecer uma importante família da sociedade portuguesa do séc. XIX – os Maias – ao longo de três gerações, com destaque para a última, entrelaçando esta história com episódios que desvendam o ambiente social que caracterizava a época.
A desgraça que acompanha esta família inicia-se com a partida para o exílio em Londres de Afonso da Maia onde a sua mulher, Maria Eduarda Runa, desgostosa de estar longe de Portugal, se dedica por completo ao seu único filho – Pedro -, que é educado tradicional e religiosamente pelo padre Vasques entre luxos e mimos das criadas, o que o torna uma criança medrosa, nervosa, fraca, melancólica e com a alma adormecida e passiva.
A morte da mãe deixa Pedro inconsolável, tendo recuperado apenas quando se apaixona perdidamente por Maria Monforte, filha de um negreiro, com quem acaba por casar apesar da declarada oposição do pai.
A vida parece sorrir a Pedro da Maia, com uma linda mulher a seu lado, dois filhos encantadores para criar – Maria Eduarda e Carlos Eduardo – e a reconciliação com o pai à vista. Mas, sem aviso, Maria Monforte foge com Tancredo – um italiano que Pedro ferira acidentalmente e havia acolhido em sua casa - levando consigo a pequena, deixando-lhe o filho e um desgosto que só encontra fim no suicídio. (pág.52 - “A madrugada (…) mão”)
Afonso procura a neta, e as informações que recebe sugerem que a criança morrera. Dedica-se, então, à educação daquele que já se tornara o seu maior orgulho – Carlos.
Os anos vão passando, Carlos vai crescendo na Quinta de Santa Olávia, onde recebe uma educação inglesa, que em tempos Afonso sonhara dar ao seu próprio filho, e torna-se um belo médico, conhecido e respeitado por toda a sociedade.
Quando Carlos regressa a Portugal, depois da longa viagem de fim de curso, os Maias mudam-se para uma sua propriedade em Lisboa - “O Ramalhete” – cujo nome tem origem num painel de azulejos com um ramo de girassóis.
Nesta cidade, Carlos vai frequentar um espaço social, onde desfilam personagens que representam este universo e participa em diversos eventos que permitem caracterizar a sociedade burguesa do século XIX. É o caso do Jantar no Hotel Central, das Corridas no Hipódromo, do sarau no Hotel da Trindade, entre outros.
Um simples olhar numa rua lisboeta é o suficiente para o jovem Maia se apaixonar por Maria Eduarda, e é em busca desse amor que corre Lisboa e Sintra, numa demanda que se revela infrutífera. (pág.243 - “Sintra (…) sossegava…”) Acaba por falar com ela pela primeira vez como médico, e desde aí os seus encontros não mais pararam, rodeados por uma felicidade sem fim.
Mas esta parece escapar por entre os dedos dos Maias e, quando tudo parecia perfeito e que nada os conseguiria separar, uma terrível carta traz ao de cima o sofrimento há muito enterrado, deita por terra a felicidade tantas vezes desenhada por Carlos e Maria Eduarda quer na Toca quer na Rua de São Francisco e desencadeia a tragédia, consumada na morte de Afonso da Maia, que não resiste à desonra do neto.
Maria Eduarda parte e Carlos sai também do país, ao qual regressa dez anos depois. Encontra-se com Ega e os dois percorrem os espaços lisboetas que conheciam e que hoje os desiludem mais. Concluem que sempre foram românticos e correm desesperadamente para apanhar o americano que os levará a um jantar...

terça-feira, 4 de setembro de 2007

10 anos passados

O último capítulo constitui um epílogo que se inicia com o reencontro de Carlos na velha Lisboa, dez anos após a morte de Afonso e da sua separação de Maria Eduarda, com Ega.
O carismático Ega iniciara outro livro, “o seu livro, sob [o] título grave de crónica heróica – Jornadas da Ásia”.
Juntos passeiam por Lisboa onde “nada mudara” - o mesmo liberalismo frustrado e a crise de identidade nacional - e apenas Dâmaso parece ter sofrido o passar do tempo, se bem que a alteração seja negativa.
É neste passeio pela capital que Carlos repara nas peculiares botas que a juventude usa, "despropositadamente compridas, rompendo para fora da calça colante com pontas aguçadas e reviradas como proas de barcos varinos…", mais uma vez o espírito português tão sui generis, tentando parecer muito moderno e civilizado, tinha exagerado o modelo.
Regressam ao velho Ramalhete onde "em baixo o jardim (…) tinha a melancolia de um retiro esquecido, que já ninguém ama (…). Depois ao fundo (…) um pedaço de Tejo e monte, tomava naquele fim de tarde um tom mais pensativo e triste." É neste poço de nostalgia que sabemos que Maria Eduarda se encontra noiva.
É nesse palco do passado que Eça resume toda a vida dos dois companheiros “E que somos nós? (…) que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão…”
O final do livro é ambíguo pois, depois de terem concluído que “não valia a pena dar um passo para alcançar coisa alguma na Terra – porque tudo se resolve (…) em desilusão e poeira”, encontramos Eça e Carlos a correr desesperadamente atrás de um americano por um prato de paio com ervilhas...

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

A sina d'Os Maias

Ega tem assim a ingrata tarefa de dizer a Carlos o incesto que cometia cada vez que se deitava com Maria, mas mesmo esta personagem, que se pode dizer “sem papas na língua”, procura a ajuda de Vilaça.
Este no início não acredita na história que partiria em metade, empolgada por uma aventura, a grande casa que era o seu orgulho, mas toda a esperança de um mal entendido se desvanece ao encontrarem na caixa uma carta escrita pela própria Monforte, assinada com o seu nome de casada – Maria Monforte da Maia - e na qual reconhecia a filha como neta de Afonso da Maia. Fica logo ali decidido que será o pobre Vilaça a informar Carlos.
No dia seguinte bem cedo entramos pela mão de Ega no Ramalhete e somos informados que o nobre Vilaça já informara Carlos…
Logo que vemos Carlos “parec[e-nos] ter conservado um ânimo viril e firme: apenas os olhos lhe rebrilhavam, com um fulgor seco, ansiosos e mais largos na palidez que o cobria”.
O jovem Maia é ainda governado pela dúvida e pela incredulidade de que tudo aquilo seria uma partida do destino sem teor científico; Afonso surge então na sala “sorrindo todo”, procurando o chapéu de Vilaça que já por inúmeras vezes interrompera a conversa de Carlos e Ega – uma pitada de comédia para atenuar o clima tenso -, mas depressa “todo o sorriso se lhe apagou”, pressentindo a desgraça. Carlos, “no ardente egoísmo da sua paixão, sem pensar no abalo cruel que ia dar ao pobre velho, cheio só de esperança” que o avô contradissesse aquela história, tudo lhe conta. Mas nada havia que a refutasse, “por trás deles caiu o grande reposteiro, com as armas dos Maias”...
Nessa mesma noite Carlos vai à rua de S. Francisco em busca de Maria Eduarda…
Dominado pela mentira, fraqueza de vontade e incapacidade de resistir à sedução, Carlos volta a deitar-se com a irmã. Só de manhã, enquanto Maria dormia, é que sente repugnância por ela, um nojo físico… “Só lhe restava matar-se!”
Regressado ao Ramalhete vislumbra o avô “em mangas de camisa, lívido, mudo, grande, espectral (…) atravess[ando] o patamar, onde a luz sobre o veludo espalhava um tom de sangue – e os seus passos perderam-se no interior da casa, lentos, abafados, cada vez mais sumidos, como se fossem os derradeiros que devesse dar na vida!”. O pensamento de suicídio deu lugar ao desejo de repousar, revelador de cobardia.
Afonso da Maia é "vencido enfim por aquele implacável destino que, depois de o ter ferido na idade da força com a desgraça do filho - o esmaga agora ao fim da velhice com a desgraça do neto". Carlos relembra a noite anterior quando, como todos os indícios o indicavam, o velho já caminhava para a morte.
“E, sobre a rua deserta, cerrou-se finalmente para o grande luto o portão do Ramalhete”. O último varão dos Maias deixa Portugal para uma longa viagem, mas antes incumbe Ega de contar tudo a Maria Eduarda.
Parte também Maria Eduarda da Maia carregada de um misto de luto, tristeza, mistério e dignidade como uma “rainha de romance”.
“Ela, de pé, moveu de leve o braço num lento adeus. E foi assim que [Ega], pela derradeira vez na vida, viu Maria Eduarda, grande e muda, toda de negro na claridade, à portinhola daquele vagão que para sempre a levava.”

Fantasmas do Passado, Tragédia do Presente

No capítulo XVI Eça propõe-nos uma ida ao teatro da Trindade para o que tudo leva a crer uma noite de cultura onde estarão presentes as mais altas personagens da sociedade lisboeta da época rodeadas de requinte para ouvir grandes oradores e talentosos maestros. Mas rapidamente Eça nos lembra que estamos em Lisboa, não em Londres ou Paris: Rufino, o orador, inflamava o auditório através de tiradas ocas que, à custa de lugares comuns de retórica fácil, apelavam à sensibilização de um público deformado pelos excessos líricos de um ultra-romântico; quando se começa a ouvir as "marteladas sábias" de Cruges no piano tocando a “Sonata Pateta”, “por toda sala, o sussurro crescia” num total desrespeito que só revela a ignorância da burguesia da época; também Alencar, outro românico, consegue arrancar sentidos aplausos da multidão seduzindo-os com artifícios poéticos.
Mas as grandes revelações da noite ainda estão para acontecer: ia já Ega a sair do sarau quando é interceptado pelo sr. Guimarães que capta toda a sua atenção e faz descer sobre ele uma terrível palidez ao fazer referência a uma suposta irmã de Carlos da Maia - Maria Eduarda Monforte ou Maria Eduarda da Maia - e logo ali Guimarães conta a Ega a história de Maria e da mãe, “tão compacta, sem uma lacuna, sem uma falha por onde rachasse e se fizesse cair aos pedaços” que o deixa com esta certeza monstruosa: Carlos amante da irmã! Guimarães deixa ainda ao cuidado de Ega “uma caixa de charutos, embrulhada num papel de dobras já sujas e gastas, com marcas de lacre onde se distinguia uma divisa que seria de certo da Monforte – Pro Amore. A tampa tinha escrito, numa letra de mulher mal ensinada: Monsieur Guimaran, à Paris”.
Assim cai por terra a felicidade Carlos, que sem o saber, era perseguido pelos fantasmas dos pais.
Como reagirão Carlos e Maria a semelhante notícia? Também Carlos, como Pedro, acabará estendido sobre o tapete do seu quarto com um tiro na cabeça?

domingo, 2 de setembro de 2007

A Corneta do Diabo

Noivos e com todo um futuro pela frente, Maria Eduarda confessa a Carlos a sua juventude desordenada e de ambientes duvidosos que, juntamente com a mãe, explicam a sua vida atribulada e ao sabor de amizades de conveniência.
Mais uma vez Carlos sente o espinho do Avô que jamais aceitaria o casamento do neto com uma mulher que na sua vida cometera tamanhos erros. Surge então a voz da razão, Ega, que aponta como a melhor solução a espera paciente da morte inevitável do velho Maia, assim este acabaria “a sua velhice calma, sem desilusões e sem desgostos”.
Num expoente de felicidade surge a necessidade - psicológica, está claro – de trabalhar, fazer algo pelo país em vez de se limitarem a criticar. Carlos relembra então “a velha ideia do cenáculo, representado por uma revista que dirigisse a literatura, educasse o gosto, elevasse a política, fizesse a civilização, remoçasse o carunchoso Portugal”.
No domingo Cruges vai jantar à Toca, mas um tempo que deve ser bem passado revelou-se um completo falhanço devido ao temperamento tímido e desinserido dos hábitos da sociedade do maestro que ficara totalmente intimidado pelo “porte de grande dame” de Maria.
Numa manhã, Carlos encontra no correio um artigo da Corneta do Diabo – jornal de pilhérias e picuinhas pertencente a Palma – cuja impressão em boa hora havia sido suspensa por Ega e no qual constam, numa linguagem sem nível, terríveis calúnias sobre o passado de Maria e sobre a sua relação com Carlos.
Este artigo surte reacções contraditórias no Maia: por um lado só pensa em matar o autor de tamanha ofensa, mas por outro pela primeira vez se questiona se “a honra doméstica, a honra social, a pureza dos homens de quem descendia, a dignidade dos homens que dele descendessem, lhe permitiam verdadeiramente casar com ela…”. Esta dúvida no entanto depressa encontra um fim e Carlos dedica-se à vingança do difamador que só pode ser “alguém frequentador da Rua de S. Francisco; alguém conhecedor da Toca; alguém que tinha, por ciúme ou vingança, um desejo ferrenho de magoar Carlos; alguém que sabia a história de Maria; e enfim que era um cobarde…”, resumindo Dâmaso!
A fim de arranjarem provas concretas - a carta do “amigo que encomendara a piada”, a lista dos que deviam receber o jornal e até o rascunho a lápis do artigo -, deslocam-se ao gabinete de Palma Cavalão que subornado tudo lhes dá.
Neste capítulo Eça critíca a degradação ética dos jornais que, aliado a um ambiente degradado, resulta em mais um vergonha para o país. E tem ainda tempo para ridicularizar o governo que, sendo composto sempre por homens de “talentos pujantes”, deveria ser agora constituído por imbecis.
Ao entrarmos em casa de Dâmaso Salcede constatamos que a sua ornamentação espampanante e semelhanças com o Ramalhete contrasta com a baixeza moral da personagem e demonstrada pelo embaraço aflito que revela perante a opção que Ega e Cruges lhe colocam: “ou se retracta publicamente dessa injúria, ou dá uma reparação pelas armas”. Cobarde como é só lhe resta desdizer-se, para isso o próprio Ega, desejoso de, também ele, se vingar por estar certo que Dâmaso era amante de Raquel, redigiu a carta que este passa depois a limpo e assina. Nesta carta Dâmaso admite que o artigo, escrito num dos estados de embriaguez que, sendo um problema hereditário, eram frequentes, continha apenas falsidades e incoerências. Esta carta não deveria ser publicada, mas o ciúme de Ega cegava-o, e acaba por a publicar noutro jornal A Tarde, como sendo uma questão de honra. Este episódio culmina na partida de Dâmaso para Itália.
Afonso dá três conselhos ao país: “aos políticos: “menos liberalismo e mais carácter”; aos homens de letras: “menos eloquência e mais ideia”; aos cidadãos em geral: “menos progresso e mais moral””.
O capítulo finda com o olhar crítico de Ega sobre a literatura e a política: “antigamente a literatura era a imaginação, a fantasia, o ideal… Hoje é a realidade, a experiência, o facto positivo, o documento”, “no tempo da Regeneração e dos Históricos, a política era o progresso, a viação, a liberdade, o palavrório… Nós mudámos tudo isso. Hoje é o facto positivo – o dinheiro, o dinheiro! O bago! A massa! A rica massinha da nossa alma, menino! O divino dinheiro!”.

sábado, 1 de setembro de 2007

Amor e Ódio

No mesmo sábado em que Afonso da Maia parte para Santa Olávia, Maria instala-se na Toca.
Estamos no capítulo XIV Alencar, à porta do Prince, apresenta-nos a um seu velho amigo e tio do nosso já muito bem conhecido Dâmaso – Guimarães – que, vindo de Paris, faz agora uma curta visita à velha Lisboa.
Todo o caminho até ao Ramalhete sente Carlos um “sombrio arrepio de dor”, no “meio da sua radiante felicidade”… pensa então no avô: ao partir com Maria, “entrava na ventura absoluta; mas ia destruir de uma vez para sempre a alegria de Afonso” que, sendo “Homem de outras eras, austero e puro (…) nesta franca viril, rasgada solução de amor indomável, só viria libertinagem”. Mas quanto à dor do avô, resultado de preconceitos, ele nada pode fazer pois a sua felicidade tem direitos mais fortes “fundados na Natureza!”.
Carlos e Maria Continuam a encontrar-se na paz da Toca, mas sempre com o espinho de Afonso presente.
É mesmo quando Carlos afirma que tem de ir a Santa Olávia ver o avô que outro presságio trespassou os olhos de Maria perdendo-os outra vez na escuridão, “como recebendo dela (…) um futuro onde tudo seria confuso e escuro também”.
Na véspera da partida de Carlos para Santa Olávia Maria vai jantar ao Ramalhete onde ganha a admiração de todos, não só pela sua beleza e encanto mas também por ser a primeira mulher a entrar no Ramalhete.
O casarão dos Maias presencia um dos presságios mais claros de todo o livro: Maria afirma que Carlos, por vezes, se assemelhava à sua falecida mãe.
Em Santa Olávia Carlos opta por ir revelando o seu romance com Maria pouco a pouco: levá-la para Itália e passar lá todo o ano com excepção da Primavera.
Agora sim tudo parece perfeito… mas depois da calmaria vem sempre a tempestade. E esta acaba por chegar com a visita de Castro Gomes que recebera no Rio de Janeiro uma carta anónima a alertá-lo para o adultério protagonizado por Maria e Carlos que deixavam o seu “nome honrado (…) pelas lamas da capital”, ora a verdade é que ele não era nenhum “marido infeliz” pois Maria não é sua esposa (o seu verdadeiro nome é Madame Mac Gren), apenas uma mulher a quem ele, por assim dizer, paga.
Castro Gomes vitorioso deixa Carlos lívido de fúria, afogueado de vergonha e dilacerado pela cólera como se “uma coisa muito bela, resplandecendo muito alto, e que caía de repente, se fazia em pedaços na lama, salpicando-o todo de nódoas intoleráveis”.
Carlos é mais um a necessitar de banhos morais.
Vai então aos Olivais pronto a terminar tudo. O que o magoa mais nem são as nódoas da história de Maria mas a mentira em que haviam sido encobertas.
Torturada pela dor, dilacerada pelas lágrimas e pelos soluços que não cessavam, Maria Eduarda apenas pedia a Carlos que escutasse a sua história… uma história de miséria, fome e sacrifício que só encontrara fim no indigno caminho do dinheiro.
Ao ouvi-la “respeitos humanos, orgulho, dignidade doméstica, tudo [em Carlos] foi levado como por um grande vento de piedade. Viu só, ofuscando todas as fragilidades, a sua beleza, a sua dor, a sua alma sublimemente amante”. E da sua boca apenas sai uma pergunta, a porta para a felicidade plena: “- Maria, queres casar comigo?”

Do Início ao Fim

Eis que a personalidade de Dâmaso se começa a revelar. Despeitado, por, segundo ele, ter sido preterido em favor de Carlos, começa a usar o boato o falatório como arma de vingança. Fala de Carlos e Maria Eduarda nos locais públicos de forma insultuosa.
Este episódio desperta a veia romântica de Carlos que, ao sentir a sua “deusa” insultada, vê só a morte de Dâmaso como solução. Também por amor desiste da ideia, afinal eram já quase as onze e tinha de ir ver a casa que, no dia seguinte, Maria Eduarda ia visitar, em prol de umas bengaladas em pleno Chiado.
Depois assistimos à tentativa frustrada de Alencar de se modernizar, dando um toque naturalista aos seus poemas românticos, como se dizer que “um burro pensativo pasta” fosse suficiente para tornar um texto realista.
É tempo de conhecer a quinta do Craft para onde Maria Eduarda se mudará. Inicialmente, parece um perfeito recanto natural, mas a excentricidade de Craft rapidamente se faz notar nos objectos que a decoram: a cor do leito e das cortinas; os amarelos excessivos; um painel com a cabeça degolada de São João Baptista, num prato de cobre; uma agoirenta coruja empalhada; um ídolo japonês de bronze... Todos estes objectos se somam ao luxo dos outros móveis e tapeçarias e adquirem uma carga negativa muito forte, que parece prenúncio da desgraça que recairá sobre o casal que agora se passeia à descoberta de um ninho.
Paralelamente a este episódio de felicidade ocorre um desastre com a Gouvarinho. Inesperadamente a condessa, em mais um acto de amor, aparece no Ramalhete cheia de ciúmes da “brasileira”, Carlos na sua indignação foi brutal e logo ali a frio terminou aquele romance.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

De Sábado a Terça

Sábado encontramos Ega de volta ao Ramalhete, abandonara o Lodaçal pois, alega que o fazia “remexer na podridão lisboeta, mergulhar outra vez na sarjeta humana”.
Afonso fica melancólico com tamanha inércia (já inúmeros tinham sido os bocados de obras primas inacabadas), Ega contrapõe que nada valia a pena no meio da “prodigiosa imbecilidade nacional”.
Na segunda-feira seguinte Ega e Carlos vão ao jantar dos Gouvarinhos. Aqui fala-se da escravatura, defendida por Ega, pois “só podia ser seriamente obedecido, quem era seriamente temido”; de mulheres, de acordo com Ega “o dever da mulher era primeiro ser bela, e depois ser estúpida” e de literatura. Este último tema em particular ficou marcado pela crítica ao Estado através da ignorância revelada por Sousa Neto, oficial superior da Instrução Pública, quando, depois de inquirir Carlos, “cheio de curiosidade inteligente”, se em Inglaterra se encontrava daquela literatura portuguesa de folhetinistas e poetas de pulso, e de ter obtido uma resposta negativa, concluí que era “tudo gente de negócios”.
Os encontros com Maria Eduarda continuam e chega o dia em que Carlos lhe declara todo o seu amor, propondo-lhe mesmo uma fuga para “algum canto do mundo”.
Mas até desapareceram, Carlos adquire uma “casa solitária e sem criados, escondida entre as árvores” onde pretende instalar Maria e Rosa.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Marcas do Destino

Adivinha-se o primeiro encontro, o tão esperado encontro, de Carlos com Madame Castro Gomes.
Cedo pela manhã encontramos o jovem Maia já na Rua de S. Francisco numa clara impaciência.
Ainda antes de a ver Carlos sabe o seu nome: Maria Eduarda... Uma similitude nos nomes significará também uma concordância dos destinos?
Mais uma marca do destino é deixada para trás no “vaso do Japão onde murchavam três belos lírios brancos”, um indício talvez do destroçar de uma família de que restavam exactamente três elos cuja estabilidade começava a estar em causa.
Desde que entrara em sua casa, Carlos parece estar a ser progressivamente preparado para ver Maria Eduarda, primeiro toma contacto com o seu nome, depois com a cadelinha que se encontra enroscada numa cadeira e desde logo se enamora por ele, só então ouve um passo leve que pisa a esteira… Maria Eduarda…
Eça descreve-a novamente como uma deusa, toda ela perfeição, desde os olhos de uma “luz escura” que encerram “alguma coisa de muito grave e de muito doce”, até aos cabelos “de dois tons, castanho-claro e castanho-escuros, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa”, passando pela “voz rica e lenta, de um tom de ouro que acariciava”.
Os indícios continuam a surgir, desta vez pelo jeito familiar com que, Maria Eduarda, tal como Afonso da Maia, cruzava ao falar as mãos sobre os joelhos. A semelhança com o avô de Carlos notava-se ainda na consternação que sentia por todo o sofrimento dos animais. A própria cadelinha - Niniche - tem o mesmo nome que uma galguinha italiana que Carlos tivera.
Miss Sara, a razão daquela visita, tinha apenas uma bronquite ligeira, nada de preocupante. Mas fora graças a ela que Carlos começara a penetrar docemente na intimidade daquela família para a qual corria todos os dias.
O amor por Maria Eduarda cresce na mesma proporção que aumenta a repulsão pela Gouvarinho.
Serão estes indícios marcas deixadas pelo destino?
Notícias do Ega! O seu regresso a Lisboa está para muito breve, por coincidência ou não, os Cohen, que também haviam partido, estavam de volta a Lisboa.
Adivinha-se um escândalo?

Um dia de sorte

O capítulo X leva-nos para o hipódromo onde se realizam as tão esperadas corridas. Sendo um desporto importado das civilizadas Inglaterra e França espera-se um ambiente colorido, exuberante, com um toque de requinte. No entanto rapidamente Eça nos dá a conhecer o provincianismo dos espectadores e dos preparativos: vestidos despropositadamente (demasiado sério ou demasiado sofisticado) os presentes mostram enfado, total desinteresse e nem apostas são feitas; o recinto por seu lado está mal preparado para este tipo de eventos (“traves mal pregadas” e “fendas do tabuado” são alguns exemplos).
Envoltas na linha postiça da civilização e na atitude forçada do decoro, as corridas apenas ganham dinamismo quando Carlos, para surpresa geral, aposta no potro Vladimiro “a que o próprio Darque chama pileca”. “Em roda (…) todo o mundo quis apostar, aproveitar-se daquela fantasia de homem rico”. Os ânimos começam a exaltar-se, apostas começam a ser feitas e as atenções centram-se finalmente na pista onde Vladimiro e Minhoto se “aproximam, com um som surdo das patas, trazendo um ar de rajada” da meta, é então que, contra todas as probabilidades, “o jóquei inglês de Vladimiro (…) fez silvar triunfantemente o chicote, e de um arremesso directo lança-o além da meta, duas cabeças adiante de Minhoto, todo coberto de espuma” dando a vitória a Carlos.

Mais surpresas esperam o jovem Maia no Ramalhete: uma carta onde Madame Castro Gomes lhe roga “para ir ver na manhã seguinte, o mais cedo possível, uma pessoa da família, que se encontrava incomodada”.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Adultério e Civilização

As três semanas em que Carlos se encontrara com a condessa na casa da “boa titi”, rodeados de um ambiente ironicamente santo que transformava a casa num “ninho de bíblias”, foram o suficiente para o Maia se enfastiar daquele romance, que trouxera consigo um problema: como fazer ver à condessa, que já por inúmeras vezes falara em fugir com ele, que terminara?
Num ambiente distraído e melancólico somos informados de um novo projecto de Ega: o Lodaçal, comédia que seria a vingança de Lisboa.
No Ramalhete discutem-se agora as corridas a acontecer já no domingo. Mas a conversa depressa se volta para a pátria, Afonso afirma sorrindo que “o verdadeiro patriotismo seria, em lugar das corridas fazer uma boa tourada”, pois tem a vantagem de “ser uma grande escola de força, de coragem e de destreza”. Todos os presentes o apoiam incluindo o nosso já conhecido Dâmaso. Este reforça “que num país, cada pessoa deve contribuir, quanto possa, para a civilização”.
Vindo deste personagem não somos surpreendido quando a sua filosofia cai por terra ao referir que fora por essa civilização que mandara “fazer para o dia das corridas uma sobrecasaca branca”.

Mefistófeles escorraçado

“O dia famoso da soirée dos Cohens, ao fim dessa semana tão luminosa e tão doce, amanheceu enevoado e triste”, mau agoiro que acaba por se confirmar quando Ega, vestido a rigor de Mefistófeles, irrompe pelo quarto de Carlos com a terrível notícia de que Cohen o escorraçara de casa ao descobrir o seu romance com Raquel. Tamanha ofensa deixa Ega consumido pela cólera e pensa já em bater-se num duelo com “aquele malvado”.
Somos apanhados totalmente desprevenidos por esta atitude romântica de Ega, que sempre se intitulara realista, e pela derradeira frase em que resume todo aquele amor romântico “-Sinto-me como se a alma tivesse caído a uma latrina! Preciso de um banho por dentro!”
Uma “péssima estreia” para Ega, que é escorraçado de Lisboa para Celorico cheio de dívidas e caído no ridículo.

Rosa & Cricri

“O português nunca pode ser homem de ideias, por causa da paixão da forma. A sua mania é fazer belas frases, ver-lhes o brilho, sentir-lhes a música. Se for necessário falsear a ideia, deixá-la incompleta, exagerá-la, para a frase ganhar em beleza, o desgraçado não hesita… Vá-se pela água abaixo o pensamento, mas salve-se a bela frase.” Novamente a ironia de Eça ataca a mentalidade portuguesa.
No capítulo IX acompanhamos Carlos numa consulta médica muito especial, ou não fosse a paciente filha de Madame Castro Gomes. Apesar da Madame não estar, Carlos absorve cada pormenor, cada aroma da casa, como se de partes dela se tratassem. Rosa encontrava-se no quarto da mãe, estendida sobre a cama agarrada a uma enorme boneca – Cricri. De uma adorável brancura, cabelo negro e dois grandes olhos de um azul profundo e líquido, a criança deixa Carlos maravilhado e fortalece a ligação que o unia àquela cujo nome desconhecia.
Onde teria Rosa ido buscar o olhar azul já que nenhum dos Castro Gomes o possuía?

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Demanda de Amor em Sintra

Sendo Sintra um paraíso romântico, é o local ideal para a procura apaixonada de Carlos. Desesperado por não conseguir encontrar a loira esplêndida apesar de ter percorrido o Aterro horas a fio, resolve tranquilizar o olhar e alma indo a Sintra para onde sabe que ela partira acompanhada pelo inconveniente Dâmaso. Convence Cruges, que mostra vontade de conhecer melhor a vila onde não vai desde criança.

Partem com algum atraso, já que Cruges, à boa maneira dos génios, não dissera a Carlos que mudara de casa, levando os seus propósitos na algibeira: Carlos quer ver Maria Eduarda; Cruges visitar Sintra e comprar queijadas. Mas apenas um dos objectivos será cumprido: a visita a Sintra.

Mal entram no Ramalhão ficam extasiados com o arvoredo, o murmúrio das águas, os muros cobertos de musgos. Vão directos ao Nunes, onde Carlos confirma a estadia de Dâmaso em Sintra, muito provavelmente na Lawrence e onde encontram o titubeante Eusebiozinho, agora viúvo, com um amigo, Palma, e duas espanholas (está em grande sofrimento o nosso Silveirinha, como podemos constatar pelo luto carregado com que se veste…). Presenciamos uma cena deplorável onde a fraqueza e hipocrisia de Eusébio sobressai. À tarde dão um passeio desde o centro até Seteais, passando pela Lawrence e enquanto Carlos antecipa a visão doce da sua deusa, o maestro delicia-se com a visão do vale e com o ar puro que ali se respira.
Ora neste espaço, recheado de arvoredos românticos e de segredos, qual a personagem que se adequaria melhor a acompanhá-los? Um poeta romântico! E eis que ele surge e resolve acompanhá-los a Seteais onde, passado o arco, visto o Penedo da Saudade que tantas recordações traz ao poeta e lhe humedece o olhar, se viram, a pedido de Alencar a observar uma tela sublime que o arco emoldura: “a rica vastidão de arvoredo cerrado, a que só se vêem os cimos redondos, vestindo um declive da serra como o musgo veste um muro, e tendo àquela distância, no brilho da luz, a suavidade macia de um grande musgo escuro.”
Regressam enfim, mas Carlos perderá rapidamente o interesse na vila, ao saber que a família que ele procura regressara a Lisboa na véspera, devido à filha que parece ter adoecido o que exigia os seus cuidados. É agora tempo para a idealizar, imaginando as suas virtudes de boa mamã…
Não é, contudo, apenas Carlos que vê frustradas as suas intenções. Também Cruges se esquecerá das queijadas, depois de ao longo do dia a cada passo se lembrar do pedido. Coisas de génios… e uma pitada de humor a encerrar o capítulo, que foi útil na caracterização da personagem principal (como se assemelha ao pai no amor…), na definição dos membros da sociedade lisboeta (o episódio com as espanholas é elucidativo do atropelo dos valores morais que caracteriza a época) e no impressionante retrato paisagístico que nos mostra uma beleza rara que ainda hoje encontramos em Sintra. Bem-haja Eça!


segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Deusa pousando a Terra

Caminhava com Steinbroken perto do Hotel Central quando a avista outra vez… qual deusa pousando a Terra. Mas desta vez, apesar de não lhe ter detalhado as feições, distingue-lhe o “negro profundo de dois olhos que se fixaram nos seus” e “sob o chapéu (…) aparecia o tom do seu cabelo castanho, quase loiro à luz”.
Durante toda uma semana Carlos abandona o seu trabalho e não cessa de a procurar, movido apenas pelo desejo de mais um olhar.
No entanto não a vê e nada mais sabe dela até ao dia em que uma inacreditável notícia chega ao Ramalhete: Dâmaso partira para Sintra com a “deusa de Carlos”- Madame Castro Gomes - e o marido. Uma nova oportunidade de a ver leva Carlos à bela cidade de Sintra...
Encontrar-se-ão enfim? Ou estarão destinados a permanecer separados?

Dâmaso Salcede e outros

“As suas carruagens, os cavalos, o Ramalhete, os hábitos de luxo, condenavam[-no] irremediavelmente ao diletantismo”, eis a conclusão a que Carlos chegou quando vê caírem por terra dois dos seus projectos: a sua elegância condenou o consultório pois, como já lhe havia dito o D. Teodósio, nenhum burguês lhe entregaria a esposa; a má-língua dos colegas, que o acusavam de fazer experiências fatais com os doentes, destruiu o laboratório. Dedica-se então a salvar o único que ainda lhe resta - o livro, o seu livro - no qual vai trabalhando “com vagares de artista rico”.
Rodeados de ironia somos apresentados a Dâmaso Salcede e aos seus inúmeros defeitos: pretensioso, superficial, ridículo, despropositado, obcecado pelo chique - conhecido pela sua frase “Chique a valer!” -, admirador incontestável de Carlos - “seguia-o de sala em sala como um rafeiro”, “imitava[-o] com uma minuciosidade inquieta, desde a barba, que começara agora a crescer, até à forma dos sapatos” -, antipatriótico – tinha um desprezo enorme por Lisboa que classifica de chinfrim -, interminável, torrencial e inundante a falar, convencido ao ponto de considerar que as mulheres “sofriam a fascinação da sua pessoa e da sua toilette”.
Perante uma tão exaustiva descrição ficamos surpreendidos quando, de acordo com o que chega ao Ramalhete, este tenha ameaçado o sr. Castro Gomes que lhe “quebrava a cara com a bengala” se voltasse a insultar Carlos. Um episódio de todo insólito se pensarmos na aula de esgrima em que se revela um fraco sem coragem.
Carlos parte mais um coração, desta vez o da condessa de Gouvarinho que, movida pela paixão, arquitecta um plano que a lança nos braços do jovem Maia.
Seremos certamente brindados com novas surpresas na soirée mascarada terá lugar no dia de anos da Raquel e para a qual eu desde já vos convido.
Serão Ega e Carlos apanhados nos seus adultérios?

Um jantar recheado de emoções

O capítulo VI brinda-nos com uma suculenta refeição num hotel “chique” da época, onde se torna evidente o cuidado com a decoração e com a ementa.
Promovido por Eça para homenagear Cohen, audácia que nos deixa espantados pois sabemos da relação clandestina que este mantém com a mulher do banqueiro, tudo é preparado ao pormenor até um prato da ementa que é “ à la Cohen”…
Esperamos assim assistir a comportamentos civilizados adequados quer aos convivas quer ao espaço. Mas Eça não fecha os olhos, antes desmascara esta sociedade que aparenta ser civilizada mas não é. Entre as variadas discussões há uma que conduz a fortes e ridículos excessos e que envolve Ega – que defende que a leitura deve ser científica – e Alencar – representante do romantismo. Exaltam-se, agridem-se verbalmente e pouco falta para a agressão física.
O hotel é que já não é o mesmo: a sala elegante parece uma taberna e eles arruaceiros. Outro tema quente no jantar é a situação do país com o banqueiro a referir levianamente que o país caminha para a bancarrota, Eça a defender a invasão espanhola e Dâmaso no seu melhor acto de patriotismo a referir que no caso de guerra se rasparia para Paris. E é assim que se faz o retrato desta sociedade burguesa e que nós a ficamos a conhecer por dentro.
Surge entretanto uma nova personagem que atrai a atenção de Carlos á entrada para o hotel: uma melhor alta, esplêndida com uma cadelinha… E a sua influência é tão forte que à noite a sua imagem emerge por diversas vezes à mente de Carlos. Estará ele apaixonado? Também o pai caiu de amores por uma espécie de deusa terrena…

Serões

O capítulo V leva-nos até ao Ramalhete para vivermos os seus serões onde encontramos D.Diogo, Afonso, Eusébiozinho, agora viúvo mas molengo como outrora, Steinbroken, excelente barítono e conhecido por duas frase - "É excessivamente grave" e "É um homem excessivamente forte" - e o Marquês. é pela voz deste grupo que conhecemos os Gouvarinhos, ele um político caloteiro e ela uma senhora inguelesada com cabelo cor de cenoura.
Os dias passam. Ega torna-se conhecido pela sua adoração pela Raquel Cohen e, numa atitude romântica elogia Vítor Hugo, escritor romântico francês, do qual tinha tantas vezes falado mal. Ega insiste com Carlos para que visitem os Gouvarinhos e este recolhe informações deles junto do seu criado descobrindo que o Gouvarinho é pouco cavalheiro e pobre, que a condessa lhe trouxe dinheiro e que ambos se dão mal.

Projectos de Carlos e Ega

Carlos traz grandes projectos - um laboratório e um consultório - que se apressa a concretizar arranjando para eles um local e tratando da sua luxuosa decoração. Quando o consultório está pronto passa lá horas sem ninguém aparecer e o ambiente preguiçoso da cidade invade esse espaço no qual ele e o criado acabam por adormecer. Até que um dia Ega reaparece mais dandy do que nunca, com luvas cor de canário, uma gravata de cetim com uma ferradura de opalas e uma sumptuosa peliça de príncipe russo. Falam dos serões na Ramalhete por onde passam Steinbroken, um diplomata excessivamente burocrata, o Cruges, o maestro pianista com génio, entre outros. Ega fala-lhe de Craft que ele admira muito, da Cohen e de um projecto conjunto: a organização de um cenáculo para o qual convidarão três mulheres de gosto e luxo para alegrarem o ambiente. Ega diz ainda que se não as encontrarem podem importá-las, como se faz com tudo em Portugal. Revela finalmente que vai publicar o seu livro Memórias de um Átomo, que está já esboçado.

domingo, 26 de agosto de 2007

Em Coimbra

Numa época em que os fidalgos se formavam em Direito, quando Carlos seguiu a carreira de Médico, muitas foram as vozes de desagrado que se fizeram ouvir: "As senhora sobretudo lamentavam que ia crescendo tão formoso, tão bom cavaleiro, viesse a estragar a vida receitando emplastros e sujando as mãos" de sangue. Mas o que seduzia Carlos era a vida prática e útil.
Segue para Coimbra, conhece João da Ega que baptiza a casa que o avô lhe montou de "Paços de Celas". Carlos simpático e abastado conquista rapidamente muitos jovens estudantes de Coimbra que frequentam a sua casa e fazem dela um espaço muito activo, com múltiplas actividades: esgrima, whist, piano, discussões... e os livros começaram a ficar abandonados, o que quase fez Carlos reprovar, como acontecia com Ega há vários anos. Este era conecido pela sua faceta revolucionária, ódio à divindade e à ordem social, que propositadamente exagerava. É difícil não o compararmos a Eça de Queirós quando lemos a sua descrição: "figura esgrouviada e seca, pêlos do bigode arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro entalado no olho direito".
Forma-se e parte para uma longa viagem pela Europa. Termina aqui a analepse iniciada nas primeiras páginas, dentro da qual ficou Caetano da Maia, a juventude de Afonso, Pedro da Maia e a juventude de Carlos. Regressamos a 1875 e ao Ramalhete redecorado.

Carlos e Eusebiozinho

Depois do suicídio de Pedro, a casa de Benfica fecha-se e Afonso parte com o neto para Santa Olávia. É também para lá que nós vamos no capítulo III, com Vilaça, administrador dos Maias. E gostamos da alegria deste rapaz que sendo filho de Pedro, nada parece ter de parecido com o pai: é alegre, desenvolto, conversador, sem receio de correr, baloiçar, andar a cavalo e remar. Tudo isto parece ter uma explicação. Afonso educa-o com a ajuda de Mr Brown, um perceptor inglês, que partilha com ele as mesmas ideias: primeiro deve formar-se um corpo forte e só depois preocupar-se com a alma; importantes são as línguas vivas e não o latim; o homem dever ser honrado por amor à honra e não por medo do Inferno; todo o homem deve compreender os fenómenos naturais. É um avô babado, mas exigente com horários e hábitos, o que parece chocar os criados e as Silveiras.
Em Santa Olávia, contactamos também com Eusebiozinho, que é o fruto de uma educação completamente diferente da de Carlos - baseada na cartilha, na memorização, na religião - e o resultado está à vista: uma criança mole, melancólica, medrosa, inerte, que recita um longo poema de memória sem qualquer emoção só para não dormir sozinho.
Pela boca de Vilaça ficamos também a saber que Maria Monforte está em Paris, vive uma vida pouco dignificante. Afonso pede-lhe para saber se a sua neta ainda está com ela e pedir-lhe que lha entregue. Vilaça dir-lhe-á semanas mais tarde que a criança morreu, e também Vilaça morrerá alguns dias depois e Afonso, a pedido de Carlos, manda fazer um jazigo "como o do papá".
No final do capítulo vem a boa notícia: carlos fez o seu primeiro exame com distinção e embora todos pensem que se formará em Direito, curso adequado, segundo a sociedade de então, ao seu estatuto social e riqueza, ele escolhe Medicina...

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Duas Gerações

Já conheço o Ramalhete... lembra-me um museu com tanta variedade, tantas relíquias, tanta obra de arte de tantos locais do mundo, ou um palácio tantas são as divisões, os quartos, os escritórios, a sala de bilhar.
Já conheço um gato, fiel companheiro de Afonso, cujo nome acompanha a sua evolução: foi Bonifácio, em seguida D. Bonifácio e depois Reverendo Bonifácio.
Também conheço Afonso, o jovem cujas ideias revolucionárias revoltam o conservador pai; o adulto que casa com Eduarda Runa, e revoltado com a Lisboa miguelista e com a busca que foi feita em sua casa parte para a sua adorada Inglaterra, onde fica até a saúde e infelicidade de sua mulher, que não suporta nem o clima, nem a língua bárbara nem a heresia do país, o obrigar a regressar; o pai que cedeu à vontade da mulher na educação do filho, sendo este o resultado de uma educação conservadora, miguelista e tradicional - um fraco que receia até o vento, como Afonso constata num passeio pelo parque; o viúvo que após a morte da mulher sofre e se revolta com a incapacidade do filho para lidar com a situação - ora cai numa angústia soturna, ora numa vida dissipada e turbulenta. Até que conhece Maria Monforte, uma mulher fatal, por quem se apaixona perdidamente, cortando relações com o pai por ser contra a sua relção com a filha de um "negreiro"e por quem se suicida depois da fuga desta com Tancredo, um príncipe napolitano que Pedro feriu e alojou em casa. Maria leva a filha e deixa a Pedro o filho Carlos, que Afonso criará com base unicamente nas suas convicções.
O destino já preparara Afonso para uma possivel tragédia pois, a única vez que viu Maria Monforte, esta abrigava-se sob uma sombrinha escarlate que "se inclinava sobre Pedro, quase o escondia, parecia envolvê-lo todo -como uma larga mancha de sangue (...)".

O Início

É impossível iniciar a leitura d´Os Maias com total imparcialidade, pois não são raros os comentários que sobre ele ouvimos, tanto no que diz respeito ao seu tamanho, como às suas descrições, no entanto não podemos cair na tentação de concordar com tudo o que ouvimos (apesar de muitas serem as más línguas que sobre ele falam, poucos serão os olhos que sobre as suas linhas pousaram). É por isso que, apesar de não ser para mim leitura obrigatória, peguei nas 700 páginas d'Os Maias e a ele dedicarei parte das minhas férias, mais ainda, aqui me proponho expor as pistas que encontrar sobre o génio de Eça.


"A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era cohecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente Ramalhete." Este é o primeiro contacto com a família dos Maias, mas quais os seus amores e dissabores? onde antes viviam? o que os levou até Lisboa?, tantas qestões que permanecem sem resposta...