Constatamos que os responsáveis pela educação são culturalmente limitados, como vemos quando Sousa Neto, oficial superior da Instrução Pública, dialoga com Carlos, querendo saber se em Inglaterra havia literatura e responde às provocações de Ega, dizendo que o amor é um assunto escabroso.
Ficamos chocados quando o director do Banco Nacional – Jacob Cohen –, no Jantar no Hotel Central, brinca com a má situação financeira do país, dizendo que ele vai “num galopezinho muito seguro e muito a direito” para a bancarrota. Mas sorrimos quando Ega defende a invasão espanhola, como única solução para o país, que depois de humilhado renasceria de novo, devido à ironia com que o diz. Lamentamos que o político Gouvarinho tenha como principal característica a falta de memória e que não saiba fundamentar as coisas que diz.
E as mulheres? Os exemplos que conhecemos – Raquel Cohen e Condessa de Gouvarinho - não são muito favoráveis para o retrato da mulher burguesa do século XIX - adúltera, fútil e imoral.
Nem o jornalismo escapa ao monóculo atento de Eça: é corrupto, sensacionalista e vive da calúnia e do suborno, como se vê bem no episódio da carta, publicada no Corneta do Diabo, em que Dâmaso humilha Carlos e quando Ega visita a redacção do Jornal “A Tarde” para fazer publicar a retratação de Dâmaso, que se confessa frequentemente embriagado.
O final é ambíguo, pois embora Carlos e Ega afirmem que "não vale a pena correr para nada, nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder" e que tudo na vida é ilusão e sofrimento, acabam por correr desesperadamente para apanhar um transporte público que os leve a um jantar para o qual estão atrasados. Mas é ao mesmo tempo esclarecedor, pois Ega – o olho e voz mais perspicazes e críticos de todo a obra – diz a Carlos que afinal eles sempre foram “românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão…”, o que nós já suspeitávamos, sobretudo em relação a Ega devido ao seu carácter impulsivo e apaixonado, que o leva, por exemplo, a cair de amores por Raquel Cohen e a pretender desafiar o marido desta para um duelo quando a relação adúltera é por ele descoberta. Também Carlos tem os seus adulteriozinhos, desde Coimbra – a Hermengarda – a Lisboa – a Gouvarinho – e também ele cairá na tentação de um duelo, quando a verdade sobre a vida e o nome de Maria Eduarda é revelada de forma insultuosa no jornal “A Corneta do Diabo”, escrita pelo despeitado Dâmaso – exemplo caricatural de todos os defeitos humanos.
A voz da razão, do bom senso e da honra e honestidade foi sempre Afonso cuja experiência o leva a resumir em três frases o rumo que o país deveria seguir: “aos políticos, menos liberalismo e mais carácter; aos homens de letras, menos eloquência e mais ideias; aos cidadãos em geral: menos progresso e mais moral.” E nós somos levados a concordar com ele quando fechamos a última página do livro e vemos Ega e Carlos desesperados atrás do americano por causa de um prato de paio com ervilhas…














