terça-feira, 28 de agosto de 2007

Demanda de Amor em Sintra

Sendo Sintra um paraíso romântico, é o local ideal para a procura apaixonada de Carlos. Desesperado por não conseguir encontrar a loira esplêndida apesar de ter percorrido o Aterro horas a fio, resolve tranquilizar o olhar e alma indo a Sintra para onde sabe que ela partira acompanhada pelo inconveniente Dâmaso. Convence Cruges, que mostra vontade de conhecer melhor a vila onde não vai desde criança.

Partem com algum atraso, já que Cruges, à boa maneira dos génios, não dissera a Carlos que mudara de casa, levando os seus propósitos na algibeira: Carlos quer ver Maria Eduarda; Cruges visitar Sintra e comprar queijadas. Mas apenas um dos objectivos será cumprido: a visita a Sintra.

Mal entram no Ramalhão ficam extasiados com o arvoredo, o murmúrio das águas, os muros cobertos de musgos. Vão directos ao Nunes, onde Carlos confirma a estadia de Dâmaso em Sintra, muito provavelmente na Lawrence e onde encontram o titubeante Eusebiozinho, agora viúvo, com um amigo, Palma, e duas espanholas (está em grande sofrimento o nosso Silveirinha, como podemos constatar pelo luto carregado com que se veste…). Presenciamos uma cena deplorável onde a fraqueza e hipocrisia de Eusébio sobressai. À tarde dão um passeio desde o centro até Seteais, passando pela Lawrence e enquanto Carlos antecipa a visão doce da sua deusa, o maestro delicia-se com a visão do vale e com o ar puro que ali se respira.
Ora neste espaço, recheado de arvoredos românticos e de segredos, qual a personagem que se adequaria melhor a acompanhá-los? Um poeta romântico! E eis que ele surge e resolve acompanhá-los a Seteais onde, passado o arco, visto o Penedo da Saudade que tantas recordações traz ao poeta e lhe humedece o olhar, se viram, a pedido de Alencar a observar uma tela sublime que o arco emoldura: “a rica vastidão de arvoredo cerrado, a que só se vêem os cimos redondos, vestindo um declive da serra como o musgo veste um muro, e tendo àquela distância, no brilho da luz, a suavidade macia de um grande musgo escuro.”
Regressam enfim, mas Carlos perderá rapidamente o interesse na vila, ao saber que a família que ele procura regressara a Lisboa na véspera, devido à filha que parece ter adoecido o que exigia os seus cuidados. É agora tempo para a idealizar, imaginando as suas virtudes de boa mamã…
Não é, contudo, apenas Carlos que vê frustradas as suas intenções. Também Cruges se esquecerá das queijadas, depois de ao longo do dia a cada passo se lembrar do pedido. Coisas de génios… e uma pitada de humor a encerrar o capítulo, que foi útil na caracterização da personagem principal (como se assemelha ao pai no amor…), na definição dos membros da sociedade lisboeta (o episódio com as espanholas é elucidativo do atropelo dos valores morais que caracteriza a época) e no impressionante retrato paisagístico que nos mostra uma beleza rara que ainda hoje encontramos em Sintra. Bem-haja Eça!


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