Através desta crónica dos costumes, sabemos como funciona a política, a educação, as finanças, o jornalismo da época e a moral. Apercebemo-nos da mediocridade cultural desta sociedade que quer aparentar ser civilizada e cosmopolita, mas não sabe valorizar o que é seu, nem adaptar a si o que importa, como é bem visível no episódio das Corridas no Hipódromo, evento que é copiado de Inglaterra e para o qual não estamos preparados: não temos cavalos, nem conhecimento, nem instalações, nem público. Talvez por isso Afonso defendesse as touradas por serem nacionais, genuínas e escola de força e coragem. Ega ilustra muito bem esta atitude com a metáfora das botas pontiagudas, cuja moda Portugal importou, mas sedento de se modernizar ridiculamente revirou as pontas como proas de barcos.
Constatamos que os responsáveis pela educação são culturalmente limitados, como vemos quando Sousa Neto, oficial superior da Instrução Pública, dialoga com Carlos, querendo saber se em Inglaterra havia literatura e responde às provocações de Ega, dizendo que o amor é um assunto escabroso.
Ficamos chocados quando o director do Banco Nacional – Jacob Cohen –, no Jantar no Hotel Central, brinca com a má situação financeira do país, dizendo que ele vai “num galopezinho muito seguro e muito a direito” para a bancarrota. Mas sorrimos quando Ega defende a invasão espanhola, como única solução para o país, que depois de humilhado renasceria de novo, devido à ironia com que o diz. Lamentamos que o político Gouvarinho tenha como principal característica a falta de memória e que não saiba fundamentar as coisas que diz.
E as mulheres? Os exemplos que conhecemos – Raquel Cohen e Condessa de Gouvarinho - não são muito favoráveis para o retrato da mulher burguesa do século XIX - adúltera, fútil e imoral.
Nem o jornalismo escapa ao monóculo atento de Eça: é corrupto, sensacionalista e vive da calúnia e do suborno, como se vê bem no episódio da carta, publicada no Corneta do Diabo, em que Dâmaso humilha Carlos e quando Ega visita a redacção do Jornal “A Tarde” para fazer publicar a retratação de Dâmaso, que se confessa frequentemente embriagado.
Constatamos que os responsáveis pela educação são culturalmente limitados, como vemos quando Sousa Neto, oficial superior da Instrução Pública, dialoga com Carlos, querendo saber se em Inglaterra havia literatura e responde às provocações de Ega, dizendo que o amor é um assunto escabroso.
Ficamos chocados quando o director do Banco Nacional – Jacob Cohen –, no Jantar no Hotel Central, brinca com a má situação financeira do país, dizendo que ele vai “num galopezinho muito seguro e muito a direito” para a bancarrota. Mas sorrimos quando Ega defende a invasão espanhola, como única solução para o país, que depois de humilhado renasceria de novo, devido à ironia com que o diz. Lamentamos que o político Gouvarinho tenha como principal característica a falta de memória e que não saiba fundamentar as coisas que diz.
E as mulheres? Os exemplos que conhecemos – Raquel Cohen e Condessa de Gouvarinho - não são muito favoráveis para o retrato da mulher burguesa do século XIX - adúltera, fútil e imoral.
Nem o jornalismo escapa ao monóculo atento de Eça: é corrupto, sensacionalista e vive da calúnia e do suborno, como se vê bem no episódio da carta, publicada no Corneta do Diabo, em que Dâmaso humilha Carlos e quando Ega visita a redacção do Jornal “A Tarde” para fazer publicar a retratação de Dâmaso, que se confessa frequentemente embriagado.
Neste ambiente fútil e imoral não admira que Carlos não realize os projectos que idealizara: no seu consultório poucos clientes recebe, o laboratório fica intacto, pois o tempo dispendido na esgrima, nos cavalos, no bricabraque, nos adulteriozinhos, nos eventos sociais e com Maria Eduarda, não lhe deixou tempo para investigar, o seu livro de ideias gerais sobre a medicina e a revista, em conjunto com Ega, mantêm-se apenas no campo das ideias. Ele é afinal aquilo que se adivinhava desde o seu tempo de Coimbra: um diletante.
O final é ambíguo, pois embora Carlos e Ega afirmem que "não vale a pena correr para nada, nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder" e que tudo na vida é ilusão e sofrimento, acabam por correr desesperadamente para apanhar um transporte público que os leve a um jantar para o qual estão atrasados. Mas é ao mesmo tempo esclarecedor, pois Ega – o olho e voz mais perspicazes e críticos de todo a obra – diz a Carlos que afinal eles sempre foram “românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão…”, o que nós já suspeitávamos, sobretudo em relação a Ega devido ao seu carácter impulsivo e apaixonado, que o leva, por exemplo, a cair de amores por Raquel Cohen e a pretender desafiar o marido desta para um duelo quando a relação adúltera é por ele descoberta. Também Carlos tem os seus adulteriozinhos, desde Coimbra – a Hermengarda – a Lisboa – a Gouvarinho – e também ele cairá na tentação de um duelo, quando a verdade sobre a vida e o nome de Maria Eduarda é revelada de forma insultuosa no jornal “A Corneta do Diabo”, escrita pelo despeitado Dâmaso – exemplo caricatural de todos os defeitos humanos.
A voz da razão, do bom senso e da honra e honestidade foi sempre Afonso cuja experiência o leva a resumir em três frases o rumo que o país deveria seguir: “aos políticos, menos liberalismo e mais carácter; aos homens de letras, menos eloquência e mais ideias; aos cidadãos em geral: menos progresso e mais moral.” E nós somos levados a concordar com ele quando fechamos a última página do livro e vemos Ega e Carlos desesperados atrás do americano por causa de um prato de paio com ervilhas…
O final é ambíguo, pois embora Carlos e Ega afirmem que "não vale a pena correr para nada, nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder" e que tudo na vida é ilusão e sofrimento, acabam por correr desesperadamente para apanhar um transporte público que os leve a um jantar para o qual estão atrasados. Mas é ao mesmo tempo esclarecedor, pois Ega – o olho e voz mais perspicazes e críticos de todo a obra – diz a Carlos que afinal eles sempre foram “românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão…”, o que nós já suspeitávamos, sobretudo em relação a Ega devido ao seu carácter impulsivo e apaixonado, que o leva, por exemplo, a cair de amores por Raquel Cohen e a pretender desafiar o marido desta para um duelo quando a relação adúltera é por ele descoberta. Também Carlos tem os seus adulteriozinhos, desde Coimbra – a Hermengarda – a Lisboa – a Gouvarinho – e também ele cairá na tentação de um duelo, quando a verdade sobre a vida e o nome de Maria Eduarda é revelada de forma insultuosa no jornal “A Corneta do Diabo”, escrita pelo despeitado Dâmaso – exemplo caricatural de todos os defeitos humanos.
A voz da razão, do bom senso e da honra e honestidade foi sempre Afonso cuja experiência o leva a resumir em três frases o rumo que o país deveria seguir: “aos políticos, menos liberalismo e mais carácter; aos homens de letras, menos eloquência e mais ideias; aos cidadãos em geral: menos progresso e mais moral.” E nós somos levados a concordar com ele quando fechamos a última página do livro e vemos Ega e Carlos desesperados atrás do americano por causa de um prato de paio com ervilhas…
