terça-feira, 16 de outubro de 2007

Comentário

Através desta crónica dos costumes, sabemos como funciona a política, a educação, as finanças, o jornalismo da época e a moral. Apercebemo-nos da mediocridade cultural desta sociedade que quer aparentar ser civilizada e cosmopolita, mas não sabe valorizar o que é seu, nem adaptar a si o que importa, como é bem visível no episódio das Corridas no Hipódromo, evento que é copiado de Inglaterra e para o qual não estamos preparados: não temos cavalos, nem conhecimento, nem instalações, nem público. Talvez por isso Afonso defendesse as touradas por serem nacionais, genuínas e escola de força e coragem. Ega ilustra muito bem esta atitude com a metáfora das botas pontiagudas, cuja moda Portugal importou, mas sedento de se modernizar ridiculamente revirou as pontas como proas de barcos.
Constatamos que os responsáveis pela educação são culturalmente limitados, como vemos quando Sousa Neto, oficial superior da Instrução Pública, dialoga com Carlos, querendo saber se em Inglaterra havia literatura e responde às provocações de Ega, dizendo que o amor é um assunto escabroso.
Ficamos chocados quando o director do Banco Nacional – Jacob Cohen –, no Jantar no Hotel Central, brinca com a má situação financeira do país, dizendo que ele vai “num galopezinho muito seguro e muito a direito” para a bancarrota. Mas sorrimos quando Ega defende a invasão espanhola, como única solução para o país, que depois de humilhado renasceria de novo, devido à ironia com que o diz. Lamentamos que o político Gouvarinho tenha como principal característica a falta de memória e que não saiba fundamentar as coisas que diz.
E as mulheres? Os exemplos que conhecemos – Raquel Cohen e Condessa de Gouvarinho - não são muito favoráveis para o retrato da mulher burguesa do século XIX - adúltera, fútil e imoral.
Nem o jornalismo escapa ao monóculo atento de Eça: é corrupto, sensacionalista e vive da calúnia e do suborno, como se vê bem no episódio da carta, publicada no Corneta do Diabo, em que Dâmaso humilha Carlos e quando Ega visita a redacção do Jornal “A Tarde” para fazer publicar a retratação de Dâmaso, que se confessa frequentemente embriagado.
Neste ambiente fútil e imoral não admira que Carlos não realize os projectos que idealizara: no seu consultório poucos clientes recebe, o laboratório fica intacto, pois o tempo dispendido na esgrima, nos cavalos, no bricabraque, nos adulteriozinhos, nos eventos sociais e com Maria Eduarda, não lhe deixou tempo para investigar, o seu livro de ideias gerais sobre a medicina e a revista, em conjunto com Ega, mantêm-se apenas no campo das ideias. Ele é afinal aquilo que se adivinhava desde o seu tempo de Coimbra: um diletante.
O final é ambíguo, pois embora Carlos e Ega afirmem que "não vale a pena correr para nada, nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder" e que tudo na vida é ilusão e sofrimento, acabam por correr desesperadamente para apanhar um transporte público que os leve a um jantar para o qual estão atrasados. Mas é ao mesmo tempo esclarecedor, pois Ega – o olho e voz mais perspicazes e críticos de todo a obra – diz a Carlos que afinal eles sempre foram “românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão…”, o que nós já suspeitávamos, sobretudo em relação a Ega devido ao seu carácter impulsivo e apaixonado, que o leva, por exemplo, a cair de amores por Raquel Cohen e a pretender desafiar o marido desta para um duelo quando a relação adúltera é por ele descoberta. Também Carlos tem os seus adulteriozinhos, desde Coimbra – a Hermengarda – a Lisboa – a Gouvarinho – e também ele cairá na tentação de um duelo, quando a verdade sobre a vida e o nome de Maria Eduarda é revelada de forma insultuosa no jornal “A Corneta do Diabo”, escrita pelo despeitado Dâmaso – exemplo caricatural de todos os defeitos humanos.
A voz da razão, do bom senso e da honra e honestidade foi sempre Afonso cuja experiência o leva a resumir em três frases o rumo que o país deveria seguir: “aos políticos, menos liberalismo e mais carácter; aos homens de letras, menos eloquência e mais ideias; aos cidadãos em geral: menos progresso e mais moral.” E nós somos levados a concordar com ele quando fechamos a última página do livro e vemos Ega e Carlos desesperados atrás do americano por causa de um prato de paio com ervilhas…

Assunto

Neste livro Eça dá-nos a conhecer uma importante família da sociedade portuguesa do séc. XIX – os Maias – ao longo de três gerações, com destaque para a última, entrelaçando esta história com episódios que desvendam o ambiente social que caracterizava a época.
A desgraça que acompanha esta família inicia-se com a partida para o exílio em Londres de Afonso da Maia onde a sua mulher, Maria Eduarda Runa, desgostosa de estar longe de Portugal, se dedica por completo ao seu único filho – Pedro -, que é educado tradicional e religiosamente pelo padre Vasques entre luxos e mimos das criadas, o que o torna uma criança medrosa, nervosa, fraca, melancólica e com a alma adormecida e passiva.
A morte da mãe deixa Pedro inconsolável, tendo recuperado apenas quando se apaixona perdidamente por Maria Monforte, filha de um negreiro, com quem acaba por casar apesar da declarada oposição do pai.
A vida parece sorrir a Pedro da Maia, com uma linda mulher a seu lado, dois filhos encantadores para criar – Maria Eduarda e Carlos Eduardo – e a reconciliação com o pai à vista. Mas, sem aviso, Maria Monforte foge com Tancredo – um italiano que Pedro ferira acidentalmente e havia acolhido em sua casa - levando consigo a pequena, deixando-lhe o filho e um desgosto que só encontra fim no suicídio. (pág.52 - “A madrugada (…) mão”)
Afonso procura a neta, e as informações que recebe sugerem que a criança morrera. Dedica-se, então, à educação daquele que já se tornara o seu maior orgulho – Carlos.
Os anos vão passando, Carlos vai crescendo na Quinta de Santa Olávia, onde recebe uma educação inglesa, que em tempos Afonso sonhara dar ao seu próprio filho, e torna-se um belo médico, conhecido e respeitado por toda a sociedade.
Quando Carlos regressa a Portugal, depois da longa viagem de fim de curso, os Maias mudam-se para uma sua propriedade em Lisboa - “O Ramalhete” – cujo nome tem origem num painel de azulejos com um ramo de girassóis.
Nesta cidade, Carlos vai frequentar um espaço social, onde desfilam personagens que representam este universo e participa em diversos eventos que permitem caracterizar a sociedade burguesa do século XIX. É o caso do Jantar no Hotel Central, das Corridas no Hipódromo, do sarau no Hotel da Trindade, entre outros.
Um simples olhar numa rua lisboeta é o suficiente para o jovem Maia se apaixonar por Maria Eduarda, e é em busca desse amor que corre Lisboa e Sintra, numa demanda que se revela infrutífera. (pág.243 - “Sintra (…) sossegava…”) Acaba por falar com ela pela primeira vez como médico, e desde aí os seus encontros não mais pararam, rodeados por uma felicidade sem fim.
Mas esta parece escapar por entre os dedos dos Maias e, quando tudo parecia perfeito e que nada os conseguiria separar, uma terrível carta traz ao de cima o sofrimento há muito enterrado, deita por terra a felicidade tantas vezes desenhada por Carlos e Maria Eduarda quer na Toca quer na Rua de São Francisco e desencadeia a tragédia, consumada na morte de Afonso da Maia, que não resiste à desonra do neto.
Maria Eduarda parte e Carlos sai também do país, ao qual regressa dez anos depois. Encontra-se com Ega e os dois percorrem os espaços lisboetas que conheciam e que hoje os desiludem mais. Concluem que sempre foram românticos e correm desesperadamente para apanhar o americano que os levará a um jantar...

terça-feira, 4 de setembro de 2007

10 anos passados

O último capítulo constitui um epílogo que se inicia com o reencontro de Carlos na velha Lisboa, dez anos após a morte de Afonso e da sua separação de Maria Eduarda, com Ega.
O carismático Ega iniciara outro livro, “o seu livro, sob [o] título grave de crónica heróica – Jornadas da Ásia”.
Juntos passeiam por Lisboa onde “nada mudara” - o mesmo liberalismo frustrado e a crise de identidade nacional - e apenas Dâmaso parece ter sofrido o passar do tempo, se bem que a alteração seja negativa.
É neste passeio pela capital que Carlos repara nas peculiares botas que a juventude usa, "despropositadamente compridas, rompendo para fora da calça colante com pontas aguçadas e reviradas como proas de barcos varinos…", mais uma vez o espírito português tão sui generis, tentando parecer muito moderno e civilizado, tinha exagerado o modelo.
Regressam ao velho Ramalhete onde "em baixo o jardim (…) tinha a melancolia de um retiro esquecido, que já ninguém ama (…). Depois ao fundo (…) um pedaço de Tejo e monte, tomava naquele fim de tarde um tom mais pensativo e triste." É neste poço de nostalgia que sabemos que Maria Eduarda se encontra noiva.
É nesse palco do passado que Eça resume toda a vida dos dois companheiros “E que somos nós? (…) que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão…”
O final do livro é ambíguo pois, depois de terem concluído que “não valia a pena dar um passo para alcançar coisa alguma na Terra – porque tudo se resolve (…) em desilusão e poeira”, encontramos Eça e Carlos a correr desesperadamente atrás de um americano por um prato de paio com ervilhas...