segunda-feira, 3 de setembro de 2007

A sina d'Os Maias

Ega tem assim a ingrata tarefa de dizer a Carlos o incesto que cometia cada vez que se deitava com Maria, mas mesmo esta personagem, que se pode dizer “sem papas na língua”, procura a ajuda de Vilaça.
Este no início não acredita na história que partiria em metade, empolgada por uma aventura, a grande casa que era o seu orgulho, mas toda a esperança de um mal entendido se desvanece ao encontrarem na caixa uma carta escrita pela própria Monforte, assinada com o seu nome de casada – Maria Monforte da Maia - e na qual reconhecia a filha como neta de Afonso da Maia. Fica logo ali decidido que será o pobre Vilaça a informar Carlos.
No dia seguinte bem cedo entramos pela mão de Ega no Ramalhete e somos informados que o nobre Vilaça já informara Carlos…
Logo que vemos Carlos “parec[e-nos] ter conservado um ânimo viril e firme: apenas os olhos lhe rebrilhavam, com um fulgor seco, ansiosos e mais largos na palidez que o cobria”.
O jovem Maia é ainda governado pela dúvida e pela incredulidade de que tudo aquilo seria uma partida do destino sem teor científico; Afonso surge então na sala “sorrindo todo”, procurando o chapéu de Vilaça que já por inúmeras vezes interrompera a conversa de Carlos e Ega – uma pitada de comédia para atenuar o clima tenso -, mas depressa “todo o sorriso se lhe apagou”, pressentindo a desgraça. Carlos, “no ardente egoísmo da sua paixão, sem pensar no abalo cruel que ia dar ao pobre velho, cheio só de esperança” que o avô contradissesse aquela história, tudo lhe conta. Mas nada havia que a refutasse, “por trás deles caiu o grande reposteiro, com as armas dos Maias”...
Nessa mesma noite Carlos vai à rua de S. Francisco em busca de Maria Eduarda…
Dominado pela mentira, fraqueza de vontade e incapacidade de resistir à sedução, Carlos volta a deitar-se com a irmã. Só de manhã, enquanto Maria dormia, é que sente repugnância por ela, um nojo físico… “Só lhe restava matar-se!”
Regressado ao Ramalhete vislumbra o avô “em mangas de camisa, lívido, mudo, grande, espectral (…) atravess[ando] o patamar, onde a luz sobre o veludo espalhava um tom de sangue – e os seus passos perderam-se no interior da casa, lentos, abafados, cada vez mais sumidos, como se fossem os derradeiros que devesse dar na vida!”. O pensamento de suicídio deu lugar ao desejo de repousar, revelador de cobardia.
Afonso da Maia é "vencido enfim por aquele implacável destino que, depois de o ter ferido na idade da força com a desgraça do filho - o esmaga agora ao fim da velhice com a desgraça do neto". Carlos relembra a noite anterior quando, como todos os indícios o indicavam, o velho já caminhava para a morte.
“E, sobre a rua deserta, cerrou-se finalmente para o grande luto o portão do Ramalhete”. O último varão dos Maias deixa Portugal para uma longa viagem, mas antes incumbe Ega de contar tudo a Maria Eduarda.
Parte também Maria Eduarda da Maia carregada de um misto de luto, tristeza, mistério e dignidade como uma “rainha de romance”.
“Ela, de pé, moveu de leve o braço num lento adeus. E foi assim que [Ega], pela derradeira vez na vida, viu Maria Eduarda, grande e muda, toda de negro na claridade, à portinhola daquele vagão que para sempre a levava.”

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