segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Fantasmas do Passado, Tragédia do Presente

No capítulo XVI Eça propõe-nos uma ida ao teatro da Trindade para o que tudo leva a crer uma noite de cultura onde estarão presentes as mais altas personagens da sociedade lisboeta da época rodeadas de requinte para ouvir grandes oradores e talentosos maestros. Mas rapidamente Eça nos lembra que estamos em Lisboa, não em Londres ou Paris: Rufino, o orador, inflamava o auditório através de tiradas ocas que, à custa de lugares comuns de retórica fácil, apelavam à sensibilização de um público deformado pelos excessos líricos de um ultra-romântico; quando se começa a ouvir as "marteladas sábias" de Cruges no piano tocando a “Sonata Pateta”, “por toda sala, o sussurro crescia” num total desrespeito que só revela a ignorância da burguesia da época; também Alencar, outro românico, consegue arrancar sentidos aplausos da multidão seduzindo-os com artifícios poéticos.
Mas as grandes revelações da noite ainda estão para acontecer: ia já Ega a sair do sarau quando é interceptado pelo sr. Guimarães que capta toda a sua atenção e faz descer sobre ele uma terrível palidez ao fazer referência a uma suposta irmã de Carlos da Maia - Maria Eduarda Monforte ou Maria Eduarda da Maia - e logo ali Guimarães conta a Ega a história de Maria e da mãe, “tão compacta, sem uma lacuna, sem uma falha por onde rachasse e se fizesse cair aos pedaços” que o deixa com esta certeza monstruosa: Carlos amante da irmã! Guimarães deixa ainda ao cuidado de Ega “uma caixa de charutos, embrulhada num papel de dobras já sujas e gastas, com marcas de lacre onde se distinguia uma divisa que seria de certo da Monforte – Pro Amore. A tampa tinha escrito, numa letra de mulher mal ensinada: Monsieur Guimaran, à Paris”.
Assim cai por terra a felicidade Carlos, que sem o saber, era perseguido pelos fantasmas dos pais.
Como reagirão Carlos e Maria a semelhante notícia? Também Carlos, como Pedro, acabará estendido sobre o tapete do seu quarto com um tiro na cabeça?

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