sexta-feira, 31 de agosto de 2007

De Sábado a Terça

Sábado encontramos Ega de volta ao Ramalhete, abandonara o Lodaçal pois, alega que o fazia “remexer na podridão lisboeta, mergulhar outra vez na sarjeta humana”.
Afonso fica melancólico com tamanha inércia (já inúmeros tinham sido os bocados de obras primas inacabadas), Ega contrapõe que nada valia a pena no meio da “prodigiosa imbecilidade nacional”.
Na segunda-feira seguinte Ega e Carlos vão ao jantar dos Gouvarinhos. Aqui fala-se da escravatura, defendida por Ega, pois “só podia ser seriamente obedecido, quem era seriamente temido”; de mulheres, de acordo com Ega “o dever da mulher era primeiro ser bela, e depois ser estúpida” e de literatura. Este último tema em particular ficou marcado pela crítica ao Estado através da ignorância revelada por Sousa Neto, oficial superior da Instrução Pública, quando, depois de inquirir Carlos, “cheio de curiosidade inteligente”, se em Inglaterra se encontrava daquela literatura portuguesa de folhetinistas e poetas de pulso, e de ter obtido uma resposta negativa, concluí que era “tudo gente de negócios”.
Os encontros com Maria Eduarda continuam e chega o dia em que Carlos lhe declara todo o seu amor, propondo-lhe mesmo uma fuga para “algum canto do mundo”.
Mas até desapareceram, Carlos adquire uma “casa solitária e sem criados, escondida entre as árvores” onde pretende instalar Maria e Rosa.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Marcas do Destino

Adivinha-se o primeiro encontro, o tão esperado encontro, de Carlos com Madame Castro Gomes.
Cedo pela manhã encontramos o jovem Maia já na Rua de S. Francisco numa clara impaciência.
Ainda antes de a ver Carlos sabe o seu nome: Maria Eduarda... Uma similitude nos nomes significará também uma concordância dos destinos?
Mais uma marca do destino é deixada para trás no “vaso do Japão onde murchavam três belos lírios brancos”, um indício talvez do destroçar de uma família de que restavam exactamente três elos cuja estabilidade começava a estar em causa.
Desde que entrara em sua casa, Carlos parece estar a ser progressivamente preparado para ver Maria Eduarda, primeiro toma contacto com o seu nome, depois com a cadelinha que se encontra enroscada numa cadeira e desde logo se enamora por ele, só então ouve um passo leve que pisa a esteira… Maria Eduarda…
Eça descreve-a novamente como uma deusa, toda ela perfeição, desde os olhos de uma “luz escura” que encerram “alguma coisa de muito grave e de muito doce”, até aos cabelos “de dois tons, castanho-claro e castanho-escuros, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa”, passando pela “voz rica e lenta, de um tom de ouro que acariciava”.
Os indícios continuam a surgir, desta vez pelo jeito familiar com que, Maria Eduarda, tal como Afonso da Maia, cruzava ao falar as mãos sobre os joelhos. A semelhança com o avô de Carlos notava-se ainda na consternação que sentia por todo o sofrimento dos animais. A própria cadelinha - Niniche - tem o mesmo nome que uma galguinha italiana que Carlos tivera.
Miss Sara, a razão daquela visita, tinha apenas uma bronquite ligeira, nada de preocupante. Mas fora graças a ela que Carlos começara a penetrar docemente na intimidade daquela família para a qual corria todos os dias.
O amor por Maria Eduarda cresce na mesma proporção que aumenta a repulsão pela Gouvarinho.
Serão estes indícios marcas deixadas pelo destino?
Notícias do Ega! O seu regresso a Lisboa está para muito breve, por coincidência ou não, os Cohen, que também haviam partido, estavam de volta a Lisboa.
Adivinha-se um escândalo?

Um dia de sorte

O capítulo X leva-nos para o hipódromo onde se realizam as tão esperadas corridas. Sendo um desporto importado das civilizadas Inglaterra e França espera-se um ambiente colorido, exuberante, com um toque de requinte. No entanto rapidamente Eça nos dá a conhecer o provincianismo dos espectadores e dos preparativos: vestidos despropositadamente (demasiado sério ou demasiado sofisticado) os presentes mostram enfado, total desinteresse e nem apostas são feitas; o recinto por seu lado está mal preparado para este tipo de eventos (“traves mal pregadas” e “fendas do tabuado” são alguns exemplos).
Envoltas na linha postiça da civilização e na atitude forçada do decoro, as corridas apenas ganham dinamismo quando Carlos, para surpresa geral, aposta no potro Vladimiro “a que o próprio Darque chama pileca”. “Em roda (…) todo o mundo quis apostar, aproveitar-se daquela fantasia de homem rico”. Os ânimos começam a exaltar-se, apostas começam a ser feitas e as atenções centram-se finalmente na pista onde Vladimiro e Minhoto se “aproximam, com um som surdo das patas, trazendo um ar de rajada” da meta, é então que, contra todas as probabilidades, “o jóquei inglês de Vladimiro (…) fez silvar triunfantemente o chicote, e de um arremesso directo lança-o além da meta, duas cabeças adiante de Minhoto, todo coberto de espuma” dando a vitória a Carlos.

Mais surpresas esperam o jovem Maia no Ramalhete: uma carta onde Madame Castro Gomes lhe roga “para ir ver na manhã seguinte, o mais cedo possível, uma pessoa da família, que se encontrava incomodada”.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Adultério e Civilização

As três semanas em que Carlos se encontrara com a condessa na casa da “boa titi”, rodeados de um ambiente ironicamente santo que transformava a casa num “ninho de bíblias”, foram o suficiente para o Maia se enfastiar daquele romance, que trouxera consigo um problema: como fazer ver à condessa, que já por inúmeras vezes falara em fugir com ele, que terminara?
Num ambiente distraído e melancólico somos informados de um novo projecto de Ega: o Lodaçal, comédia que seria a vingança de Lisboa.
No Ramalhete discutem-se agora as corridas a acontecer já no domingo. Mas a conversa depressa se volta para a pátria, Afonso afirma sorrindo que “o verdadeiro patriotismo seria, em lugar das corridas fazer uma boa tourada”, pois tem a vantagem de “ser uma grande escola de força, de coragem e de destreza”. Todos os presentes o apoiam incluindo o nosso já conhecido Dâmaso. Este reforça “que num país, cada pessoa deve contribuir, quanto possa, para a civilização”.
Vindo deste personagem não somos surpreendido quando a sua filosofia cai por terra ao referir que fora por essa civilização que mandara “fazer para o dia das corridas uma sobrecasaca branca”.

Mefistófeles escorraçado

“O dia famoso da soirée dos Cohens, ao fim dessa semana tão luminosa e tão doce, amanheceu enevoado e triste”, mau agoiro que acaba por se confirmar quando Ega, vestido a rigor de Mefistófeles, irrompe pelo quarto de Carlos com a terrível notícia de que Cohen o escorraçara de casa ao descobrir o seu romance com Raquel. Tamanha ofensa deixa Ega consumido pela cólera e pensa já em bater-se num duelo com “aquele malvado”.
Somos apanhados totalmente desprevenidos por esta atitude romântica de Ega, que sempre se intitulara realista, e pela derradeira frase em que resume todo aquele amor romântico “-Sinto-me como se a alma tivesse caído a uma latrina! Preciso de um banho por dentro!”
Uma “péssima estreia” para Ega, que é escorraçado de Lisboa para Celorico cheio de dívidas e caído no ridículo.

Rosa & Cricri

“O português nunca pode ser homem de ideias, por causa da paixão da forma. A sua mania é fazer belas frases, ver-lhes o brilho, sentir-lhes a música. Se for necessário falsear a ideia, deixá-la incompleta, exagerá-la, para a frase ganhar em beleza, o desgraçado não hesita… Vá-se pela água abaixo o pensamento, mas salve-se a bela frase.” Novamente a ironia de Eça ataca a mentalidade portuguesa.
No capítulo IX acompanhamos Carlos numa consulta médica muito especial, ou não fosse a paciente filha de Madame Castro Gomes. Apesar da Madame não estar, Carlos absorve cada pormenor, cada aroma da casa, como se de partes dela se tratassem. Rosa encontrava-se no quarto da mãe, estendida sobre a cama agarrada a uma enorme boneca – Cricri. De uma adorável brancura, cabelo negro e dois grandes olhos de um azul profundo e líquido, a criança deixa Carlos maravilhado e fortalece a ligação que o unia àquela cujo nome desconhecia.
Onde teria Rosa ido buscar o olhar azul já que nenhum dos Castro Gomes o possuía?

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Demanda de Amor em Sintra

Sendo Sintra um paraíso romântico, é o local ideal para a procura apaixonada de Carlos. Desesperado por não conseguir encontrar a loira esplêndida apesar de ter percorrido o Aterro horas a fio, resolve tranquilizar o olhar e alma indo a Sintra para onde sabe que ela partira acompanhada pelo inconveniente Dâmaso. Convence Cruges, que mostra vontade de conhecer melhor a vila onde não vai desde criança.

Partem com algum atraso, já que Cruges, à boa maneira dos génios, não dissera a Carlos que mudara de casa, levando os seus propósitos na algibeira: Carlos quer ver Maria Eduarda; Cruges visitar Sintra e comprar queijadas. Mas apenas um dos objectivos será cumprido: a visita a Sintra.

Mal entram no Ramalhão ficam extasiados com o arvoredo, o murmúrio das águas, os muros cobertos de musgos. Vão directos ao Nunes, onde Carlos confirma a estadia de Dâmaso em Sintra, muito provavelmente na Lawrence e onde encontram o titubeante Eusebiozinho, agora viúvo, com um amigo, Palma, e duas espanholas (está em grande sofrimento o nosso Silveirinha, como podemos constatar pelo luto carregado com que se veste…). Presenciamos uma cena deplorável onde a fraqueza e hipocrisia de Eusébio sobressai. À tarde dão um passeio desde o centro até Seteais, passando pela Lawrence e enquanto Carlos antecipa a visão doce da sua deusa, o maestro delicia-se com a visão do vale e com o ar puro que ali se respira.
Ora neste espaço, recheado de arvoredos românticos e de segredos, qual a personagem que se adequaria melhor a acompanhá-los? Um poeta romântico! E eis que ele surge e resolve acompanhá-los a Seteais onde, passado o arco, visto o Penedo da Saudade que tantas recordações traz ao poeta e lhe humedece o olhar, se viram, a pedido de Alencar a observar uma tela sublime que o arco emoldura: “a rica vastidão de arvoredo cerrado, a que só se vêem os cimos redondos, vestindo um declive da serra como o musgo veste um muro, e tendo àquela distância, no brilho da luz, a suavidade macia de um grande musgo escuro.”
Regressam enfim, mas Carlos perderá rapidamente o interesse na vila, ao saber que a família que ele procura regressara a Lisboa na véspera, devido à filha que parece ter adoecido o que exigia os seus cuidados. É agora tempo para a idealizar, imaginando as suas virtudes de boa mamã…
Não é, contudo, apenas Carlos que vê frustradas as suas intenções. Também Cruges se esquecerá das queijadas, depois de ao longo do dia a cada passo se lembrar do pedido. Coisas de génios… e uma pitada de humor a encerrar o capítulo, que foi útil na caracterização da personagem principal (como se assemelha ao pai no amor…), na definição dos membros da sociedade lisboeta (o episódio com as espanholas é elucidativo do atropelo dos valores morais que caracteriza a época) e no impressionante retrato paisagístico que nos mostra uma beleza rara que ainda hoje encontramos em Sintra. Bem-haja Eça!


segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Deusa pousando a Terra

Caminhava com Steinbroken perto do Hotel Central quando a avista outra vez… qual deusa pousando a Terra. Mas desta vez, apesar de não lhe ter detalhado as feições, distingue-lhe o “negro profundo de dois olhos que se fixaram nos seus” e “sob o chapéu (…) aparecia o tom do seu cabelo castanho, quase loiro à luz”.
Durante toda uma semana Carlos abandona o seu trabalho e não cessa de a procurar, movido apenas pelo desejo de mais um olhar.
No entanto não a vê e nada mais sabe dela até ao dia em que uma inacreditável notícia chega ao Ramalhete: Dâmaso partira para Sintra com a “deusa de Carlos”- Madame Castro Gomes - e o marido. Uma nova oportunidade de a ver leva Carlos à bela cidade de Sintra...
Encontrar-se-ão enfim? Ou estarão destinados a permanecer separados?

Dâmaso Salcede e outros

“As suas carruagens, os cavalos, o Ramalhete, os hábitos de luxo, condenavam[-no] irremediavelmente ao diletantismo”, eis a conclusão a que Carlos chegou quando vê caírem por terra dois dos seus projectos: a sua elegância condenou o consultório pois, como já lhe havia dito o D. Teodósio, nenhum burguês lhe entregaria a esposa; a má-língua dos colegas, que o acusavam de fazer experiências fatais com os doentes, destruiu o laboratório. Dedica-se então a salvar o único que ainda lhe resta - o livro, o seu livro - no qual vai trabalhando “com vagares de artista rico”.
Rodeados de ironia somos apresentados a Dâmaso Salcede e aos seus inúmeros defeitos: pretensioso, superficial, ridículo, despropositado, obcecado pelo chique - conhecido pela sua frase “Chique a valer!” -, admirador incontestável de Carlos - “seguia-o de sala em sala como um rafeiro”, “imitava[-o] com uma minuciosidade inquieta, desde a barba, que começara agora a crescer, até à forma dos sapatos” -, antipatriótico – tinha um desprezo enorme por Lisboa que classifica de chinfrim -, interminável, torrencial e inundante a falar, convencido ao ponto de considerar que as mulheres “sofriam a fascinação da sua pessoa e da sua toilette”.
Perante uma tão exaustiva descrição ficamos surpreendidos quando, de acordo com o que chega ao Ramalhete, este tenha ameaçado o sr. Castro Gomes que lhe “quebrava a cara com a bengala” se voltasse a insultar Carlos. Um episódio de todo insólito se pensarmos na aula de esgrima em que se revela um fraco sem coragem.
Carlos parte mais um coração, desta vez o da condessa de Gouvarinho que, movida pela paixão, arquitecta um plano que a lança nos braços do jovem Maia.
Seremos certamente brindados com novas surpresas na soirée mascarada terá lugar no dia de anos da Raquel e para a qual eu desde já vos convido.
Serão Ega e Carlos apanhados nos seus adultérios?

Um jantar recheado de emoções

O capítulo VI brinda-nos com uma suculenta refeição num hotel “chique” da época, onde se torna evidente o cuidado com a decoração e com a ementa.
Promovido por Eça para homenagear Cohen, audácia que nos deixa espantados pois sabemos da relação clandestina que este mantém com a mulher do banqueiro, tudo é preparado ao pormenor até um prato da ementa que é “ à la Cohen”…
Esperamos assim assistir a comportamentos civilizados adequados quer aos convivas quer ao espaço. Mas Eça não fecha os olhos, antes desmascara esta sociedade que aparenta ser civilizada mas não é. Entre as variadas discussões há uma que conduz a fortes e ridículos excessos e que envolve Ega – que defende que a leitura deve ser científica – e Alencar – representante do romantismo. Exaltam-se, agridem-se verbalmente e pouco falta para a agressão física.
O hotel é que já não é o mesmo: a sala elegante parece uma taberna e eles arruaceiros. Outro tema quente no jantar é a situação do país com o banqueiro a referir levianamente que o país caminha para a bancarrota, Eça a defender a invasão espanhola e Dâmaso no seu melhor acto de patriotismo a referir que no caso de guerra se rasparia para Paris. E é assim que se faz o retrato desta sociedade burguesa e que nós a ficamos a conhecer por dentro.
Surge entretanto uma nova personagem que atrai a atenção de Carlos á entrada para o hotel: uma melhor alta, esplêndida com uma cadelinha… E a sua influência é tão forte que à noite a sua imagem emerge por diversas vezes à mente de Carlos. Estará ele apaixonado? Também o pai caiu de amores por uma espécie de deusa terrena…

Serões

O capítulo V leva-nos até ao Ramalhete para vivermos os seus serões onde encontramos D.Diogo, Afonso, Eusébiozinho, agora viúvo mas molengo como outrora, Steinbroken, excelente barítono e conhecido por duas frase - "É excessivamente grave" e "É um homem excessivamente forte" - e o Marquês. é pela voz deste grupo que conhecemos os Gouvarinhos, ele um político caloteiro e ela uma senhora inguelesada com cabelo cor de cenoura.
Os dias passam. Ega torna-se conhecido pela sua adoração pela Raquel Cohen e, numa atitude romântica elogia Vítor Hugo, escritor romântico francês, do qual tinha tantas vezes falado mal. Ega insiste com Carlos para que visitem os Gouvarinhos e este recolhe informações deles junto do seu criado descobrindo que o Gouvarinho é pouco cavalheiro e pobre, que a condessa lhe trouxe dinheiro e que ambos se dão mal.

Projectos de Carlos e Ega

Carlos traz grandes projectos - um laboratório e um consultório - que se apressa a concretizar arranjando para eles um local e tratando da sua luxuosa decoração. Quando o consultório está pronto passa lá horas sem ninguém aparecer e o ambiente preguiçoso da cidade invade esse espaço no qual ele e o criado acabam por adormecer. Até que um dia Ega reaparece mais dandy do que nunca, com luvas cor de canário, uma gravata de cetim com uma ferradura de opalas e uma sumptuosa peliça de príncipe russo. Falam dos serões na Ramalhete por onde passam Steinbroken, um diplomata excessivamente burocrata, o Cruges, o maestro pianista com génio, entre outros. Ega fala-lhe de Craft que ele admira muito, da Cohen e de um projecto conjunto: a organização de um cenáculo para o qual convidarão três mulheres de gosto e luxo para alegrarem o ambiente. Ega diz ainda que se não as encontrarem podem importá-las, como se faz com tudo em Portugal. Revela finalmente que vai publicar o seu livro Memórias de um Átomo, que está já esboçado.

domingo, 26 de agosto de 2007

Em Coimbra

Numa época em que os fidalgos se formavam em Direito, quando Carlos seguiu a carreira de Médico, muitas foram as vozes de desagrado que se fizeram ouvir: "As senhora sobretudo lamentavam que ia crescendo tão formoso, tão bom cavaleiro, viesse a estragar a vida receitando emplastros e sujando as mãos" de sangue. Mas o que seduzia Carlos era a vida prática e útil.
Segue para Coimbra, conhece João da Ega que baptiza a casa que o avô lhe montou de "Paços de Celas". Carlos simpático e abastado conquista rapidamente muitos jovens estudantes de Coimbra que frequentam a sua casa e fazem dela um espaço muito activo, com múltiplas actividades: esgrima, whist, piano, discussões... e os livros começaram a ficar abandonados, o que quase fez Carlos reprovar, como acontecia com Ega há vários anos. Este era conecido pela sua faceta revolucionária, ódio à divindade e à ordem social, que propositadamente exagerava. É difícil não o compararmos a Eça de Queirós quando lemos a sua descrição: "figura esgrouviada e seca, pêlos do bigode arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro entalado no olho direito".
Forma-se e parte para uma longa viagem pela Europa. Termina aqui a analepse iniciada nas primeiras páginas, dentro da qual ficou Caetano da Maia, a juventude de Afonso, Pedro da Maia e a juventude de Carlos. Regressamos a 1875 e ao Ramalhete redecorado.

Carlos e Eusebiozinho

Depois do suicídio de Pedro, a casa de Benfica fecha-se e Afonso parte com o neto para Santa Olávia. É também para lá que nós vamos no capítulo III, com Vilaça, administrador dos Maias. E gostamos da alegria deste rapaz que sendo filho de Pedro, nada parece ter de parecido com o pai: é alegre, desenvolto, conversador, sem receio de correr, baloiçar, andar a cavalo e remar. Tudo isto parece ter uma explicação. Afonso educa-o com a ajuda de Mr Brown, um perceptor inglês, que partilha com ele as mesmas ideias: primeiro deve formar-se um corpo forte e só depois preocupar-se com a alma; importantes são as línguas vivas e não o latim; o homem dever ser honrado por amor à honra e não por medo do Inferno; todo o homem deve compreender os fenómenos naturais. É um avô babado, mas exigente com horários e hábitos, o que parece chocar os criados e as Silveiras.
Em Santa Olávia, contactamos também com Eusebiozinho, que é o fruto de uma educação completamente diferente da de Carlos - baseada na cartilha, na memorização, na religião - e o resultado está à vista: uma criança mole, melancólica, medrosa, inerte, que recita um longo poema de memória sem qualquer emoção só para não dormir sozinho.
Pela boca de Vilaça ficamos também a saber que Maria Monforte está em Paris, vive uma vida pouco dignificante. Afonso pede-lhe para saber se a sua neta ainda está com ela e pedir-lhe que lha entregue. Vilaça dir-lhe-á semanas mais tarde que a criança morreu, e também Vilaça morrerá alguns dias depois e Afonso, a pedido de Carlos, manda fazer um jazigo "como o do papá".
No final do capítulo vem a boa notícia: carlos fez o seu primeiro exame com distinção e embora todos pensem que se formará em Direito, curso adequado, segundo a sociedade de então, ao seu estatuto social e riqueza, ele escolhe Medicina...

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Duas Gerações

Já conheço o Ramalhete... lembra-me um museu com tanta variedade, tantas relíquias, tanta obra de arte de tantos locais do mundo, ou um palácio tantas são as divisões, os quartos, os escritórios, a sala de bilhar.
Já conheço um gato, fiel companheiro de Afonso, cujo nome acompanha a sua evolução: foi Bonifácio, em seguida D. Bonifácio e depois Reverendo Bonifácio.
Também conheço Afonso, o jovem cujas ideias revolucionárias revoltam o conservador pai; o adulto que casa com Eduarda Runa, e revoltado com a Lisboa miguelista e com a busca que foi feita em sua casa parte para a sua adorada Inglaterra, onde fica até a saúde e infelicidade de sua mulher, que não suporta nem o clima, nem a língua bárbara nem a heresia do país, o obrigar a regressar; o pai que cedeu à vontade da mulher na educação do filho, sendo este o resultado de uma educação conservadora, miguelista e tradicional - um fraco que receia até o vento, como Afonso constata num passeio pelo parque; o viúvo que após a morte da mulher sofre e se revolta com a incapacidade do filho para lidar com a situação - ora cai numa angústia soturna, ora numa vida dissipada e turbulenta. Até que conhece Maria Monforte, uma mulher fatal, por quem se apaixona perdidamente, cortando relações com o pai por ser contra a sua relção com a filha de um "negreiro"e por quem se suicida depois da fuga desta com Tancredo, um príncipe napolitano que Pedro feriu e alojou em casa. Maria leva a filha e deixa a Pedro o filho Carlos, que Afonso criará com base unicamente nas suas convicções.
O destino já preparara Afonso para uma possivel tragédia pois, a única vez que viu Maria Monforte, esta abrigava-se sob uma sombrinha escarlate que "se inclinava sobre Pedro, quase o escondia, parecia envolvê-lo todo -como uma larga mancha de sangue (...)".

O Início

É impossível iniciar a leitura d´Os Maias com total imparcialidade, pois não são raros os comentários que sobre ele ouvimos, tanto no que diz respeito ao seu tamanho, como às suas descrições, no entanto não podemos cair na tentação de concordar com tudo o que ouvimos (apesar de muitas serem as más línguas que sobre ele falam, poucos serão os olhos que sobre as suas linhas pousaram). É por isso que, apesar de não ser para mim leitura obrigatória, peguei nas 700 páginas d'Os Maias e a ele dedicarei parte das minhas férias, mais ainda, aqui me proponho expor as pistas que encontrar sobre o génio de Eça.


"A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era cohecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente Ramalhete." Este é o primeiro contacto com a família dos Maias, mas quais os seus amores e dissabores? onde antes viviam? o que os levou até Lisboa?, tantas qestões que permanecem sem resposta...