terça-feira, 4 de setembro de 2007

10 anos passados

O último capítulo constitui um epílogo que se inicia com o reencontro de Carlos na velha Lisboa, dez anos após a morte de Afonso e da sua separação de Maria Eduarda, com Ega.
O carismático Ega iniciara outro livro, “o seu livro, sob [o] título grave de crónica heróica – Jornadas da Ásia”.
Juntos passeiam por Lisboa onde “nada mudara” - o mesmo liberalismo frustrado e a crise de identidade nacional - e apenas Dâmaso parece ter sofrido o passar do tempo, se bem que a alteração seja negativa.
É neste passeio pela capital que Carlos repara nas peculiares botas que a juventude usa, "despropositadamente compridas, rompendo para fora da calça colante com pontas aguçadas e reviradas como proas de barcos varinos…", mais uma vez o espírito português tão sui generis, tentando parecer muito moderno e civilizado, tinha exagerado o modelo.
Regressam ao velho Ramalhete onde "em baixo o jardim (…) tinha a melancolia de um retiro esquecido, que já ninguém ama (…). Depois ao fundo (…) um pedaço de Tejo e monte, tomava naquele fim de tarde um tom mais pensativo e triste." É neste poço de nostalgia que sabemos que Maria Eduarda se encontra noiva.
É nesse palco do passado que Eça resume toda a vida dos dois companheiros “E que somos nós? (…) que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão…”
O final do livro é ambíguo pois, depois de terem concluído que “não valia a pena dar um passo para alcançar coisa alguma na Terra – porque tudo se resolve (…) em desilusão e poeira”, encontramos Eça e Carlos a correr desesperadamente atrás de um americano por um prato de paio com ervilhas...

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

A sina d'Os Maias

Ega tem assim a ingrata tarefa de dizer a Carlos o incesto que cometia cada vez que se deitava com Maria, mas mesmo esta personagem, que se pode dizer “sem papas na língua”, procura a ajuda de Vilaça.
Este no início não acredita na história que partiria em metade, empolgada por uma aventura, a grande casa que era o seu orgulho, mas toda a esperança de um mal entendido se desvanece ao encontrarem na caixa uma carta escrita pela própria Monforte, assinada com o seu nome de casada – Maria Monforte da Maia - e na qual reconhecia a filha como neta de Afonso da Maia. Fica logo ali decidido que será o pobre Vilaça a informar Carlos.
No dia seguinte bem cedo entramos pela mão de Ega no Ramalhete e somos informados que o nobre Vilaça já informara Carlos…
Logo que vemos Carlos “parec[e-nos] ter conservado um ânimo viril e firme: apenas os olhos lhe rebrilhavam, com um fulgor seco, ansiosos e mais largos na palidez que o cobria”.
O jovem Maia é ainda governado pela dúvida e pela incredulidade de que tudo aquilo seria uma partida do destino sem teor científico; Afonso surge então na sala “sorrindo todo”, procurando o chapéu de Vilaça que já por inúmeras vezes interrompera a conversa de Carlos e Ega – uma pitada de comédia para atenuar o clima tenso -, mas depressa “todo o sorriso se lhe apagou”, pressentindo a desgraça. Carlos, “no ardente egoísmo da sua paixão, sem pensar no abalo cruel que ia dar ao pobre velho, cheio só de esperança” que o avô contradissesse aquela história, tudo lhe conta. Mas nada havia que a refutasse, “por trás deles caiu o grande reposteiro, com as armas dos Maias”...
Nessa mesma noite Carlos vai à rua de S. Francisco em busca de Maria Eduarda…
Dominado pela mentira, fraqueza de vontade e incapacidade de resistir à sedução, Carlos volta a deitar-se com a irmã. Só de manhã, enquanto Maria dormia, é que sente repugnância por ela, um nojo físico… “Só lhe restava matar-se!”
Regressado ao Ramalhete vislumbra o avô “em mangas de camisa, lívido, mudo, grande, espectral (…) atravess[ando] o patamar, onde a luz sobre o veludo espalhava um tom de sangue – e os seus passos perderam-se no interior da casa, lentos, abafados, cada vez mais sumidos, como se fossem os derradeiros que devesse dar na vida!”. O pensamento de suicídio deu lugar ao desejo de repousar, revelador de cobardia.
Afonso da Maia é "vencido enfim por aquele implacável destino que, depois de o ter ferido na idade da força com a desgraça do filho - o esmaga agora ao fim da velhice com a desgraça do neto". Carlos relembra a noite anterior quando, como todos os indícios o indicavam, o velho já caminhava para a morte.
“E, sobre a rua deserta, cerrou-se finalmente para o grande luto o portão do Ramalhete”. O último varão dos Maias deixa Portugal para uma longa viagem, mas antes incumbe Ega de contar tudo a Maria Eduarda.
Parte também Maria Eduarda da Maia carregada de um misto de luto, tristeza, mistério e dignidade como uma “rainha de romance”.
“Ela, de pé, moveu de leve o braço num lento adeus. E foi assim que [Ega], pela derradeira vez na vida, viu Maria Eduarda, grande e muda, toda de negro na claridade, à portinhola daquele vagão que para sempre a levava.”

Fantasmas do Passado, Tragédia do Presente

No capítulo XVI Eça propõe-nos uma ida ao teatro da Trindade para o que tudo leva a crer uma noite de cultura onde estarão presentes as mais altas personagens da sociedade lisboeta da época rodeadas de requinte para ouvir grandes oradores e talentosos maestros. Mas rapidamente Eça nos lembra que estamos em Lisboa, não em Londres ou Paris: Rufino, o orador, inflamava o auditório através de tiradas ocas que, à custa de lugares comuns de retórica fácil, apelavam à sensibilização de um público deformado pelos excessos líricos de um ultra-romântico; quando se começa a ouvir as "marteladas sábias" de Cruges no piano tocando a “Sonata Pateta”, “por toda sala, o sussurro crescia” num total desrespeito que só revela a ignorância da burguesia da época; também Alencar, outro românico, consegue arrancar sentidos aplausos da multidão seduzindo-os com artifícios poéticos.
Mas as grandes revelações da noite ainda estão para acontecer: ia já Ega a sair do sarau quando é interceptado pelo sr. Guimarães que capta toda a sua atenção e faz descer sobre ele uma terrível palidez ao fazer referência a uma suposta irmã de Carlos da Maia - Maria Eduarda Monforte ou Maria Eduarda da Maia - e logo ali Guimarães conta a Ega a história de Maria e da mãe, “tão compacta, sem uma lacuna, sem uma falha por onde rachasse e se fizesse cair aos pedaços” que o deixa com esta certeza monstruosa: Carlos amante da irmã! Guimarães deixa ainda ao cuidado de Ega “uma caixa de charutos, embrulhada num papel de dobras já sujas e gastas, com marcas de lacre onde se distinguia uma divisa que seria de certo da Monforte – Pro Amore. A tampa tinha escrito, numa letra de mulher mal ensinada: Monsieur Guimaran, à Paris”.
Assim cai por terra a felicidade Carlos, que sem o saber, era perseguido pelos fantasmas dos pais.
Como reagirão Carlos e Maria a semelhante notícia? Também Carlos, como Pedro, acabará estendido sobre o tapete do seu quarto com um tiro na cabeça?

domingo, 2 de setembro de 2007

A Corneta do Diabo

Noivos e com todo um futuro pela frente, Maria Eduarda confessa a Carlos a sua juventude desordenada e de ambientes duvidosos que, juntamente com a mãe, explicam a sua vida atribulada e ao sabor de amizades de conveniência.
Mais uma vez Carlos sente o espinho do Avô que jamais aceitaria o casamento do neto com uma mulher que na sua vida cometera tamanhos erros. Surge então a voz da razão, Ega, que aponta como a melhor solução a espera paciente da morte inevitável do velho Maia, assim este acabaria “a sua velhice calma, sem desilusões e sem desgostos”.
Num expoente de felicidade surge a necessidade - psicológica, está claro – de trabalhar, fazer algo pelo país em vez de se limitarem a criticar. Carlos relembra então “a velha ideia do cenáculo, representado por uma revista que dirigisse a literatura, educasse o gosto, elevasse a política, fizesse a civilização, remoçasse o carunchoso Portugal”.
No domingo Cruges vai jantar à Toca, mas um tempo que deve ser bem passado revelou-se um completo falhanço devido ao temperamento tímido e desinserido dos hábitos da sociedade do maestro que ficara totalmente intimidado pelo “porte de grande dame” de Maria.
Numa manhã, Carlos encontra no correio um artigo da Corneta do Diabo – jornal de pilhérias e picuinhas pertencente a Palma – cuja impressão em boa hora havia sido suspensa por Ega e no qual constam, numa linguagem sem nível, terríveis calúnias sobre o passado de Maria e sobre a sua relação com Carlos.
Este artigo surte reacções contraditórias no Maia: por um lado só pensa em matar o autor de tamanha ofensa, mas por outro pela primeira vez se questiona se “a honra doméstica, a honra social, a pureza dos homens de quem descendia, a dignidade dos homens que dele descendessem, lhe permitiam verdadeiramente casar com ela…”. Esta dúvida no entanto depressa encontra um fim e Carlos dedica-se à vingança do difamador que só pode ser “alguém frequentador da Rua de S. Francisco; alguém conhecedor da Toca; alguém que tinha, por ciúme ou vingança, um desejo ferrenho de magoar Carlos; alguém que sabia a história de Maria; e enfim que era um cobarde…”, resumindo Dâmaso!
A fim de arranjarem provas concretas - a carta do “amigo que encomendara a piada”, a lista dos que deviam receber o jornal e até o rascunho a lápis do artigo -, deslocam-se ao gabinete de Palma Cavalão que subornado tudo lhes dá.
Neste capítulo Eça critíca a degradação ética dos jornais que, aliado a um ambiente degradado, resulta em mais um vergonha para o país. E tem ainda tempo para ridicularizar o governo que, sendo composto sempre por homens de “talentos pujantes”, deveria ser agora constituído por imbecis.
Ao entrarmos em casa de Dâmaso Salcede constatamos que a sua ornamentação espampanante e semelhanças com o Ramalhete contrasta com a baixeza moral da personagem e demonstrada pelo embaraço aflito que revela perante a opção que Ega e Cruges lhe colocam: “ou se retracta publicamente dessa injúria, ou dá uma reparação pelas armas”. Cobarde como é só lhe resta desdizer-se, para isso o próprio Ega, desejoso de, também ele, se vingar por estar certo que Dâmaso era amante de Raquel, redigiu a carta que este passa depois a limpo e assina. Nesta carta Dâmaso admite que o artigo, escrito num dos estados de embriaguez que, sendo um problema hereditário, eram frequentes, continha apenas falsidades e incoerências. Esta carta não deveria ser publicada, mas o ciúme de Ega cegava-o, e acaba por a publicar noutro jornal A Tarde, como sendo uma questão de honra. Este episódio culmina na partida de Dâmaso para Itália.
Afonso dá três conselhos ao país: “aos políticos: “menos liberalismo e mais carácter”; aos homens de letras: “menos eloquência e mais ideia”; aos cidadãos em geral: “menos progresso e mais moral””.
O capítulo finda com o olhar crítico de Ega sobre a literatura e a política: “antigamente a literatura era a imaginação, a fantasia, o ideal… Hoje é a realidade, a experiência, o facto positivo, o documento”, “no tempo da Regeneração e dos Históricos, a política era o progresso, a viação, a liberdade, o palavrório… Nós mudámos tudo isso. Hoje é o facto positivo – o dinheiro, o dinheiro! O bago! A massa! A rica massinha da nossa alma, menino! O divino dinheiro!”.

sábado, 1 de setembro de 2007

Amor e Ódio

No mesmo sábado em que Afonso da Maia parte para Santa Olávia, Maria instala-se na Toca.
Estamos no capítulo XIV Alencar, à porta do Prince, apresenta-nos a um seu velho amigo e tio do nosso já muito bem conhecido Dâmaso – Guimarães – que, vindo de Paris, faz agora uma curta visita à velha Lisboa.
Todo o caminho até ao Ramalhete sente Carlos um “sombrio arrepio de dor”, no “meio da sua radiante felicidade”… pensa então no avô: ao partir com Maria, “entrava na ventura absoluta; mas ia destruir de uma vez para sempre a alegria de Afonso” que, sendo “Homem de outras eras, austero e puro (…) nesta franca viril, rasgada solução de amor indomável, só viria libertinagem”. Mas quanto à dor do avô, resultado de preconceitos, ele nada pode fazer pois a sua felicidade tem direitos mais fortes “fundados na Natureza!”.
Carlos e Maria Continuam a encontrar-se na paz da Toca, mas sempre com o espinho de Afonso presente.
É mesmo quando Carlos afirma que tem de ir a Santa Olávia ver o avô que outro presságio trespassou os olhos de Maria perdendo-os outra vez na escuridão, “como recebendo dela (…) um futuro onde tudo seria confuso e escuro também”.
Na véspera da partida de Carlos para Santa Olávia Maria vai jantar ao Ramalhete onde ganha a admiração de todos, não só pela sua beleza e encanto mas também por ser a primeira mulher a entrar no Ramalhete.
O casarão dos Maias presencia um dos presságios mais claros de todo o livro: Maria afirma que Carlos, por vezes, se assemelhava à sua falecida mãe.
Em Santa Olávia Carlos opta por ir revelando o seu romance com Maria pouco a pouco: levá-la para Itália e passar lá todo o ano com excepção da Primavera.
Agora sim tudo parece perfeito… mas depois da calmaria vem sempre a tempestade. E esta acaba por chegar com a visita de Castro Gomes que recebera no Rio de Janeiro uma carta anónima a alertá-lo para o adultério protagonizado por Maria e Carlos que deixavam o seu “nome honrado (…) pelas lamas da capital”, ora a verdade é que ele não era nenhum “marido infeliz” pois Maria não é sua esposa (o seu verdadeiro nome é Madame Mac Gren), apenas uma mulher a quem ele, por assim dizer, paga.
Castro Gomes vitorioso deixa Carlos lívido de fúria, afogueado de vergonha e dilacerado pela cólera como se “uma coisa muito bela, resplandecendo muito alto, e que caía de repente, se fazia em pedaços na lama, salpicando-o todo de nódoas intoleráveis”.
Carlos é mais um a necessitar de banhos morais.
Vai então aos Olivais pronto a terminar tudo. O que o magoa mais nem são as nódoas da história de Maria mas a mentira em que haviam sido encobertas.
Torturada pela dor, dilacerada pelas lágrimas e pelos soluços que não cessavam, Maria Eduarda apenas pedia a Carlos que escutasse a sua história… uma história de miséria, fome e sacrifício que só encontrara fim no indigno caminho do dinheiro.
Ao ouvi-la “respeitos humanos, orgulho, dignidade doméstica, tudo [em Carlos] foi levado como por um grande vento de piedade. Viu só, ofuscando todas as fragilidades, a sua beleza, a sua dor, a sua alma sublimemente amante”. E da sua boca apenas sai uma pergunta, a porta para a felicidade plena: “- Maria, queres casar comigo?”

Do Início ao Fim

Eis que a personalidade de Dâmaso se começa a revelar. Despeitado, por, segundo ele, ter sido preterido em favor de Carlos, começa a usar o boato o falatório como arma de vingança. Fala de Carlos e Maria Eduarda nos locais públicos de forma insultuosa.
Este episódio desperta a veia romântica de Carlos que, ao sentir a sua “deusa” insultada, vê só a morte de Dâmaso como solução. Também por amor desiste da ideia, afinal eram já quase as onze e tinha de ir ver a casa que, no dia seguinte, Maria Eduarda ia visitar, em prol de umas bengaladas em pleno Chiado.
Depois assistimos à tentativa frustrada de Alencar de se modernizar, dando um toque naturalista aos seus poemas românticos, como se dizer que “um burro pensativo pasta” fosse suficiente para tornar um texto realista.
É tempo de conhecer a quinta do Craft para onde Maria Eduarda se mudará. Inicialmente, parece um perfeito recanto natural, mas a excentricidade de Craft rapidamente se faz notar nos objectos que a decoram: a cor do leito e das cortinas; os amarelos excessivos; um painel com a cabeça degolada de São João Baptista, num prato de cobre; uma agoirenta coruja empalhada; um ídolo japonês de bronze... Todos estes objectos se somam ao luxo dos outros móveis e tapeçarias e adquirem uma carga negativa muito forte, que parece prenúncio da desgraça que recairá sobre o casal que agora se passeia à descoberta de um ninho.
Paralelamente a este episódio de felicidade ocorre um desastre com a Gouvarinho. Inesperadamente a condessa, em mais um acto de amor, aparece no Ramalhete cheia de ciúmes da “brasileira”, Carlos na sua indignação foi brutal e logo ali a frio terminou aquele romance.